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16.JUN.2004 Incêndio a bordo - Acidente com o PU-JMC |
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A despedida do PU-JCM foi em um vôo que começou as 07:30 em Americana-SP, teve escalas em Divinópolis-MG, Governador Valadares-MG, Vitória da Conquista-BA e concluiu as 16:30 em Morro de São Paulo-BA. Depois de abastecido e inspecionado em Vitória da Conquista, subi para o 055 e voei o FASCINATION por uma hora, em um vôo perfeito. Me lembrava do Nallin com seu PA. O ar calmo do fim de tarde quase não me obrigava a tocar nos comandos. De repente, percebi cheiro de fumaça no cokpit. Olhei para baixo e vi uma queimada na mata. O terreno deveria estar a uns 2500 pés. Imediatamente pensei vir o cheiro daquele fogo na mata. Minutos depois a mata queimada ficou para traz e o cheiro de queimado dentro da cabine ficou mais forte. Na minha mente já estava configurada a situação de emergência. Acionei o GPS que me mostrou a pista mais próxima, Valença-BA, ainda uns 10 min fora. Em baixo, um terreno acidentado com matas e morros sem nenhuma opção aceitável. O cheiro de queimado ficou mais forte e forcei a máxima em procedimentos de emergência: Manter a calma. Alguns segundos mais e nenhum instrumento elétrico funcionava: rádio, GPS, xponder, temp, pressão e RPM. Xinguei-me por não ter trocado as pilhas do GPS GARMIN PILOT III antes da decolagem. Cheguei sobre Valença, a uns 500 pés sobre o terreno, com muita fumaça na cabine. Era uma fumaça branca e ardida que irritava os olhos, nariz e garganta. Não consegui achar a pista de Valença e resolvi jogar o avião na água do mar. Nesse ponto me lembrei do Hebert Viana e seu quase afogamento; mudei de idéia. Como o motor respondia forte, optei por Morro de São Paulo porque vi o farol e sabia que ao lado tem a pista de grama dos italianos. Cheguei na longa final da pista já sem visibilidade frontal pela fumaça no cokpit e com fogo vindo dos pedais. Puxei toda manete do motor para traz e a velocidade começou a reduzir. O FASCINATION é muito liso e demora a baixar a velocidade. Decidi que baixaria o trem de pouso imediatamente sem olhar muito para o velocímetro. Puxei flap 15 graus, acima da velocidade limite. Dei um murro em cada janela de mau tempo, quebrando as duas e forcei a saída de ar traseira do cockpit quebrando-a também. Melhorou o ambiente dentro da cabine. Iniciei os procedimentos para baixar o trem de pouso com a bomba manual, que no FASCINATION consiste em soltar a trava, abrir o dreno de óleo hidráulico e bombear manualmente a alavanca que fica no console central junto ao piso. Foi uma tarefa muito difícil porque tinha que pegar ar de fora com a mão na janela de mau tempo, prender a respiração, fechar os olhos e mergulhar o tronco na fumaça ardida para a mão alcançar a alavanca da bomba hidráulica do trem. Acionei a bomba pegando ar pela janela, até sentir uma pressão que indicava que a bequilha estava travada já que sem elétrica a bordo não haveria indicação pelas luzes do trem de pouso. E nem poderia ver pelas janelas de inspeção devido a fumaça branca já ter invadido todo o cockpit. Desliguei os magnetos e nada do motor parar, imaginei que o fogo já tinha consumido a fiação de aterramento dos magnetos. Fechei a válvula de gasolina e desliguei a master (inútil porque nada elétrico funcionava mais). Quando olhei pela "janela de mau tempo" estava fora do eixo da pista sobre um coqueiral. Ai comecei a sentir pânico, pois só me sobrou arremeter ou voar para os arrecifes na praia. Estava a uns 10 metros acima dos coqueiros. Acelerei o motor, baixei o nariz, ganhei um pouco de velocidade fiz um reverso, morrendo de medo de estolar a asa e alinhei com a pista. Para poder ver a vista pela "janela de mau tempo", decidi meter os pés no fogo e pisei fundo no pedal para glissar. Imaginei estar pousando com vento de cauda. Arredondei e meti de novo os pés no fogo para descomandar a glissada, mas ali junto aos pedais já estava quente demais e pouco consegui corrigir o avião. No toque a bequilha se rompeu ou mesmo recolheu, não sei, o nariz baixou e o PU-JCM parou em 50 m. Abandonei com labaredas de fogo vindo dos pedais já na altura do assento do piloto. O lado do passageiro estava em situação pouco melhor, mas já havia chama no piso. Voltei junto ao avião e peguei minha mala e os fones de ouvido. O fogo consumiu o ultraleve em poucos minutos. Uns vinte no máximo.
Estava ileso; apenas uma irritação na garganta e uma vermelhidão nos olhos causada pela fumaça. Uma semana antes ouvi o relato do Werner de Curitiba sobre o mesmo problema vivenciado por ele em vôo com seu FASCINATION para Araras. Lá mesmo em Americana, fui inspecionar o cano de escape do PU-JCM. Não vi nada de anormal. Forcei o cano para baixo, direita e esquerda e nada de quebrar ou se mover. Me senti aliviado por não ter que fazer manutenção em plena festa. O cano de escape do meu avião estava revestido com uma fita de manta cerâmica isolante de calor. Essa fita me impediu de ver as soldas das curvas do cano de escape. A causa imediata foi o rompimento do cano de escape e a causa básica foi a parede de fogo não ter resistido aos gases quentes e ter permitido o fogo pular para dentro da cabine. O PU-JCM fez o primeiro vôo em maio de 1999. Portanto já com quase 5 anos de vida. O cano de escape do FASCINATION, é de aço inóx e existem várias curvas de 45 graus soldadas para permitir o encaminhamento da tubulação para baixo da barriga do avião. Quebrou na ZTA (Zona Termicamente Afetada) da solda da primeira curva. Indicação clara de falta de pós aquecimento depois da soldagem. Os gases quentes do escape saiam do silencioso e jateavam a parede de fogo e a carenagem do motor. No FASCINATION não existia a "bacia" da parede de fogo. A carenagem do motor se encaixava na parte externa da parede de fogo. Com o calor não houve mais vedação entre a parede de fogo e a carenagem assim os gases quentes passaram para a lateral do avião. Essa lateral, de fibra e resina, queimou e permitiu a passagem do calor para o interior da cabine iniciando o fogo no piso. Pela velocidade da frente de chama a resina usada para a fabricação não tinha retardador de queima e/ou mesmo aditivos anti-propagação de fogo. Assim houve o incêndio dentro da cabine. O fato de eu estar sempre me treinando em procedimentos de emergências me salvou desse acidente. Estava somente eu a bordo e os danos foram puramente materiais. Vou trabalhar para comprar outro. Obrigado a todos colegas da ABUL, pelas muitas palavras de conforto e de carinho. Estou bastante comovido com as mensagens que ouvi e recebi de todos vocês. Ab.: JC
João Carlos Martins de Medeiros Aracaju/SE e-mail: jc@infonet.com.br |