De Fortaleza a Brasília
- a aventura solitária de Sabino Freire -

Ao descrever esta minha pequena viagem entre Fortaleza e Brasília pelo interior, quase em linha reta, em vôo solo e de Ultraleve, desejo divulgar esta rota como uma excelente alternativa para nós do interior do País que, muitas vezes, nos deparamos com as dificuldades de sair de casa em viagens mais “ousadas”.

Aprendi que o maior perigo de uma viagem é ela não começar...

A viagem, por si só, não é significativa ante a feitos como o vôo500 e outras peripécias que tenho visto corajosos pilotos empreenderem. Apenas é uma viagem que foi feita por um piloto com alguma experiência em aviação mas, muito pouca em ultraleve, e que pode servir de incentivo a todos os pilotos de ultraleves básicos e avançados.

Esta “ultravia” é uma entrada maravilhosa a ser usada pelos ultralevistas paulistas, goianos e candangos que desejarem curtir um bom passeio às praias do Nordeste, passando pela Serra da Capivara e por um Brasil muito desconhecido.

Para os que moram na costa, fica fácil seguir a linha da praia (ex: entre o Rio e o Nordeste), com toda segurança, muitas pistas para abastecer e locais maravilhosos para pernoite, como Porto Seguro, Ilhéus, Itaparica etc.

Sem praia, a navegação e a logística têm especial valor para o sucesso de uma “aventura” como esta que aqui pretendo descrever.

A DECISÃO.
Voava, há alguns anos, um Microleve mono, envenenado com um Rotax 503. (o original era um 377) (e afinado pelo meu amigo Valdir do CEU) que me permitia um alcance e velocidades impróprias para viajar. Morria de inveja dos contadores das estórias de suas viagens nos finais de semana. Decidi trocar por algo que me permitisse sair por aí, visitando o Brasil curtindo os prazeres do vôo.

Lendo Amyr Klink, aprendi que o maior perigo de uma viagem é ela não começar. Decidi que não correria este perigo e passei ao planejamento, já decidido que faria o vôo e sozinho. Seguindo indicações de fiéis amigos, comprei um Mistral em Fortaleza. Fiquei com o problema de como trazê-lo, já que eu só dispunha dos finais de semana para o traslado.

PREPARAÇÃO DA VIAGEM.
Comecei com a adequação da aeronave que, já com 110:00 horas de vôo e três anos de uso, precisava de um retoque.

Comprei no escuro, por telefone, de um cearense "pai d'égua", garantido de que a máquina estava excelente, pela palavra dos meus amigos Ovídio e Cassimiro, com quem tivera apenas 1:30 hora de instrução no AEROLEVE, onde fizemos 5 pousos.

Comprei um avião e fiz bons amigos no AEROLEVE, modelo de clube engrenado e amizade inigualável. Eles hidratam o organismo todas as tardes, jogando conversa fora. Viajam o NE todo, quase sempre em grupos, como aves de arribação. São um exemplo e merecem uma visita.

Imediatamente após a aquisição, fiz a revisão de 50 horas do Rotax 582, trocando todas as mangueiras de refrigeração e combustível, aumentando a minha tranqüilidade quanto a uma pane de motor.

Entreguei a máquina à Ultraleger que fez uma revisão da célula, após o que, renovei a RIAM.

Chamo a atenção para esta preocupação quanto à segurança.

EQUIPAMENTO DE NAVEGAÇÃO:
Ressalto que a velha bússola e o velho mapa são, ainda, os grandes equipamentos do navegador que queira ter a certeza de que vai chegar ao seu destino, passando pela rota planejada e “sabendo” onde está, identificando, inclusive, as diferenças entre o mapa e o terreno.

Por isso, utilizei um conjunto de cartas aeronáuticas na escala de 1:250.000. Esta escala tem mais detalhes e não “enche” a nacele, sendo possível dobrá-la de forma a abranger uma boa etapa de 2 ou 3 horas de vôo.

O mapa rodoviário da Quatro Rodas complementa as informações para a navegação VOR (Voando olhando a rodovia).
O plotador e o computador Jeppsen completaram minha pastinha de navegação onde também estavam um ROTAER, lápis, borracha e fita adesiva. (sou craque em rasgar mapa).
Instalei um GARMIN Pilot III no painel que me ajudou muito.
(É bom levar também um GPS de reserva.)

A ROTA:
O percurso foi escolhido após análise do relevo, de forma a escolher o caminho mais curto e sobrevoando o máximo possível terreno regular. Mais uma vez, segurança para pousos e, evidentemente, mais conforto devido à turbulência.

A nossa aeronave estava equipada com um tanque reserva de 20 litros, totalizando 75 litros utilizáveis, com 4:30 de autonomia o que, a 135 km/h permite etapas de até 500 km com segurança.

Assim, escolhemos a seguinte rota: Alto da Balança; Tauá, Picos, São Raimundo Nonato, Barra, Barreiras, Posse e Brasília.

Se tirarmos uma reta entre Fortaleza e Barreiras, verificamos que a BR-020 é asfaltada até Picos servindo de auxílio à navegação e local para pouso, além de passar por várias cidades com muitas pistas, a maioria, asfaltada.

De Picos a São Raimundo Nonato, a estrada é semi-asfaltada, mas “ainda” existe.

Entre São Raimundo Nonato e Barra, acaba a estrada mas o terreno é plano e logo se avista a barragem do São Francisco.

O trecho Barra-Barreiras acompanha o Rio Grande. De Barreiras a Brasília, a paisagem é totalmente plana, recoberta de soja e cheia de pistas, muitas delas com aeronaves particulares e aviões agrícolas.

DECOLAGEM DE FORTALEZA.
O nascer do sol em Fortaleza no dia 21 de novembro de 1999 foi às 06:14. Foi a hora em que tirei as borrachas do chão e aproei Tauá.

Descobri que os cearenses além de praias têm um paraíso chamado Serra de Guaramiranga que deixei à esquerda. Havia uma camada a cerca de 3000’ e por alí segui, sem poder ver Guaramiranga, a cidade que fica no topo da serra. Seguindo sobre a BR-020, após 2:45 de vôo, chegamos a Tauá. A pista asfaltada fica afastada da cidade cerca de 10km. Abasteci com 20 lt de AVGAZ que estavam sob o banco do passageiro e decolei para Picos.

A primeira constatação é que esta área está totalmente desenvolvida, considerando a imagem que se faz do agreste esturricado. Até Picos, a qualquer momento pode-se pousar e, quase sempre, obtém-se um bom sinal de celular. São muitas as cidades e vários os locais de pouso. O trecho de Tauá a Picos foi de apenas 1:30 e aí eu já estava conhecendo melhor o Mistral. Eu queria ter certeza de que o consumo estava dentro do previsto, o que foi confirmado em 16 lt/h.

PICOS.
Pousei em Picos já quase 11 horas. Ao contrário de Tauá, onde ninguém apareceu no campo, mal eu desci do avião, já havia uma meia dúzia de garotos me olhado. 

A pista fica ao lado de uma rua no setor Oeste da cidade. Há um posto de gasolina a cerca de 50 metros do pátio de estacionamento. Um hangar foi minha salvação pois o sol de 35ºC estava a pino. Empurrei o Mistral para a sombra e iniciei a faina.

Para surpresa minha, havia AVGAZ em tambores de plástico. Comprei 40 lts e abasteci, ajudado pelo Sr. Francisco, guarda-campo, há 25 anos na atividade de zelar pelo aeroporto, orgulhoso do que bem faz, encheu-me de orgulho de ser seu compatriota..

Não consegui decolar de imediato pois aquele povo me contagiou e fiquei de “prosa”. Os adultos, bem falantes e os garotos barrigudinhos e espertos. O “seu” Francisco é uma figura digna de nota. 

Dei uma mensagem de posição para minha esposa que, a esta altura já estava para acionar o serviço de busca e salvamento da sua família cearense. Um piauiense me ofereceu seu celular pois o meu não funcionou.

Levei 1 hora neste pedaço de Brasil e decolei para São Raimundo Nonato. A estrada segue caminho tortuoso e eu resolvi manter a reta e logo já sobrevoava o Parque Nacional da Serra da Capivara.

É indescritível a natureza do Parque. Grandes e numerosas depressões de formações rochosas de um colorido acinzentado espetacular. O verde da vegetação nos vales, nessa época do ano, era intenso.

Após 2 horas de vôo, pousei em SNSN. A pista estava sendo asfaltada pela Engenharia do Exército. Aí, havia um hangar com um ultraleve Fox V-2. Tirei 30 litros do assento do passageiro e completei o tanque. Mais uma vez, com a aeronave rodeada de auxiliares, não tive o mínimo trabalho para abastecer.

Na casa do guarda-campo, sua esposa e filhos me ofereceram um café recém passado, mel de açúcar. Mais uma vez, parti querendo ficar prosando e conhecendo mais aqueles novos amigos, gente humilde e de um coração maravilhoso. Todo mundo quer ajudar. Se você diz que precisa ir até à cidade, alguém oferece a bicicleta, outros indicam o caminho (todos ao mesmo tempo), pegam no seu braço, pergunta se vai voltar etc.

Aproei Barra, cidade às margens do São Francisco. A primeira vez que pousei por lá, era garoto e acompanhava meu velho pai que voava DC-3 na SADIA (depois Transbrasil). Local ideal para o pernoite pois a pista fica ao lado da cidade e tudo fica mais fácil.

Pousei, após sobrevoar a cidade e o Rio Chico.

Ao invés de estação de aeroporto, há um bar-restaurante que estava repleto de jovens curtindo o Domingo.

Duas casas ao lado do pátio de estacionamento abrigam a família de um funcionário da prefeitura que se propôs a “vigiar” o avião.

O único posto de gasolina fica ao lado da pista e foi onde comprei 40 lts de AVCAR. Pelo cheiro, estava com vários “aditivos”. A cor confirmava.

Fiz uma inspeção visual no motor e na estrutura e preparei para pernoite.

O PERNOITE EM BARRA.
Ao voltar do posto de gasolina, carregando duas bombonas de 20 litros, dois garotos me abordaram e me impuseram ajuda. Cada um “tomou” uma vasilha e resolveram que iriam ser meus cicerones e não pararam mais de contar “estórias”.

Levaram-me até a uma pensão, onde, apesar da TV estar ligada e todas as portas abertas, não havia ninguém tomando conta. Descobri que a responsável estava defronte trocando cartões de telefone pois era colecionadora. Ela gritou para eu esperar e, após um tempinho, me hospedou ao preço de R$ 5,00 (cinco reais). Dei R$ 5,00 reais aos garotos que ficaram maravilhados. Acho que imaginavam uma gorjeta bem menor.

Tratei de achar um telefone. As filas nos orelhões eram enormes e, na telefônica, não conseguia telefonar para Brasília. Avisei ao pessoal do AEROLEVE que fez uma ponte. Irmandade a toda prova.

A cidade estava vestida com a “domingueira”. Na caminhada de reconhecimento, passei pela igreja repleta de fiéis. Na praça da matriz, como todas as praças, a garotada caçava e era caçada. Muita gente animada passeando.

No rio, algumas barcas estacionadas fazem a travessia para a outra margem (Xique-Xique). Uma barca Motel apoiava a atividade de algumas moças que, ali na margem, mariposavam discretamente.

Em um restaurante na beira do Rio, pedi uma peixada comercial que veio farta e me custou 3,10 reais, incluindo um suco de cacau.

Dormi até às cinco e, ainda escuro, caminhei o quilômetro e meio até o aeroporto em uma rua de areia, sob uma chuva leve. Decolei no nascer do sol.


A indescritível beleza do "Velho Chico"

Entre o Rio São Francisco e Barreiras há uma pequena serra. Com 20 min de vôo, encontrei uma formação colada no chão e continuava a chover um pouco. Achei que dava para passar e, depois de 1:40 de cisca, tive que voltar e comprar mais 20 litros de gasolina podre. Não havia como passar a serra. Esperei até às 11 horas e, com o tempo bem melhor, decolei novamente. Não havia necessidade de ter forçado a “barra”. Este foi um erro que eu não precisava cometer. Mas tentava chegar em Brasília ao meio dia.

De Barra a Barreiras, no Rio Grande, sobrevoa-se muitas fazendas e plantações. Pode-se optar, também, por descer até a BR-242 e ir “VOR”.

Barreiras é o primeiro contato com as facilidades do Brasil desenvolvido. Abasteci o avião e o banco do passageiro, onde haviam três tanques de 20 lts de reserva.

Há vários ultraleves, inclusive uma escola com bons aviões aí em Barreiras.

Para planejamento de quem fizer esta viagem, a pista não é próxima à cidade. Há que se utilizar taxi (R$ 20, 00 ida e volta). Muitos hotéis estão disponíveis na faixa de 40 a 100 reais. A BR e a Shell têm AVGAZ mas não têm óleo 2 tempos.

De Barreira a Brasília, o vôo é covardia. Há um sem número de pistas, algumas delas asfaltadas. O grande problema do verão no Planalto Central é a meteorologia. No período da tarde, os CB se multiplicam, cada um maior que o outro.

As últimas 400 milhas foram na sombra das bigornas. Naquele dia, em especial, já perto de Brasília, passamos por baixo de uma peso pesado que nos sacudiu o quanto pôde. Era impossível digitar qualquer coisa no GPS pois não conseguia ficar com a mão firme no painel.

Neste dia, o Brasília Ultra Leve Clube (BUC) foi destelhado pelo vendaval que passara 1 hora antes do nosso pouso aqui na capital.

Cheguei 20 min antes do por do sol e ainda fiz dois pequenos vôos locais com os amigos da APUB que estavam lá naquela Segunda Feira, 22 de novembro.

APRENDIZADO PARA A PRÓXIMA VIAGEM QUE NÃO ESTÁ LONGE.

O meu objetivo aqui foi passar os meus erros e acertos, de forma a incentivar os amantes do ultraleve a sairem de casa conscientes de o podem fazer de modo seguro.

Como falei, entendo que o GPS não pode ser usado como único recurso em uma navegação. O piloto tem que saber onde está, “vendo” na carta. Isso, no início, pode ser difícil. Com a prática, fica fácil.

No trecho Fortaleza / Tauá, as coordenadas do destino foram colocadas erradas. Devido à turbulência, meu dedo apertou inadvertidamente um número errado. O GPS me informava um desvio lateral mas minha navegação por contato me dizia que eu estava certo. Até que descobri o erro.

Na preparação da logística, é importante a preparação de uma bom farnel. Apesar das facilidade de pouso, não há opções ideais de alimentação. Senti falta de ter a bordo água, fruta e garrafa plástica que permitisse urinar. Levei muito pouca coisa e passei fome. De Barreira a Brasília, tive que pousar em Posse para ir ao mictório (cauda do Mistral).

O vôo solo é uma afirmação e sobra espaço. Mas o ideal é um bom companheiro navegador em lugar do combustível. Meu sonho ainda é pegar minha esposa e fazer uma pernada como essa com tempo disponível. Ainda não consegui convencê-la.

O uso da AVCAR, misturada com a AVGAZ remanescente daria para fazer a viagem. O importante é não usar a gasolina contaminada.

RESUMO DA VIAGEM
Consumo: 280 litros;
Tempo: 2 dias;
Início: 21/11/99

Etapas

DIA

DE

PARA

DCG

PSO

T. VÔO

21/11/99

SNAA

TAUÁ

6:14

8:59

2:45

21/11/99

TAUÁ

SNPC

9:30

11:00

1:30

21/11/99

SNPC

SNSN

11:56

14:01

2:05

21/11/99

SNSN

SNBX

14:25

16:55

2:30

22/11/99

SNB

SNBX

6:35

8:15

1:40

22/11/99

SNBX

SNBR

10:55

12:50

1:55

22/11/99

SNBR

SWPX

14:20

16:30

2:10

22/11/99

SWPX

APUB

16:55

19:05

2:10

TOTAL

16:45

Rota

 

Resumo


SABINO FREIRE


MISTRAL - U.4638

DATA:
TRECHO:
DISTÂNCIA:
TEMPO DE VÔO:
AERONAVE:
PILOTO:
CONTATO:

21 e 22 de novembro de 1999
Fortaleza / Brasília
1.741 km
2 dias - 16:45 horas de vôo
Mistral / Rotax 582
Sabino Freire - vôo solo
sabinof@tba.com.br