|
A vontade de ir
a Noronha sempre foi grande, e várias tentativas frustradas já
me deixavam achando que meu destino era não conhecer tão
maravilhosa ilha. Quando o Nader veio com a proposta de irmos
para lá no seu ultraleve, não pensei duas vezes para topar a
aventura. Foi em meados de outubro de 99 que a idéia surgiu, e
eu sempre achei que a única dificuldade seria a travessia das
200 milhas que separam o continente da ilha.
Pode
parecer óbvio que essa fosse minha preocupação, mas quando se
fala em ultraleves, muitas pessoas acham que este aparelho só
serve para se voar ao redor dos aeroclubes ou, quando muito,
para uma curta navegação quase sempre sem ultrapassar algumas
horas de vôo. Hoje em dia, os ultraleves avançados são
classificados assim somente por seu peso estar dentro da faixa
que a legislação determina, pois são na realidade aviões,
sem o conforto de um Tupi ou Skyhawk, mas com desempenho igual
ou superior ao destes! Com seu motor Rotax, super confiável,
tanque de 100 litros (cinco horas de autonomia), cruzeiro de
200km/h e teto de 13.000 pés, o Super Echo é capaz de longas
viagens, deixando o proprietário tranqüilo quanto ao seu
funcionamento.
Na
nossa visão, a ida até Natal não tinha nada de especial. Com
um bom planejamento de abastecimento no caminho, essa etapa
seria tranqüila, já que a rota para lá passa por muitas
cidades do litoral, que dispõem de uma ótima infra-estrutura
nos aeroportos. Em novembro passado fizemos um pequeno treino,
indo até a Praia do Forte, pouco depois de Salvador, e passamos
a confiar ainda mais no Echo. A época escolhida para nossa
grande viagem não era a melhor, já que maio é período de
chuvas no Nordeste mas, como minhas férias já estavam
marcadas, não tivemos outra opção.
Para a
travessia até Noronha teríamos que providenciar bote salva
vidas, coletes e sacos plásticos próprios para uso no mar,
para colocar o rádio de comunicação e o GPS. Começamos então
a sentir que nossa empreitada já havia contaminado os amigos e
muitos fizeram questão de nos ajudar. O major Albrecht nos
cedeu seu bote, conseguimos, na FAB, coletes salva vidas do caça
AMX, o Armando Nogueira nos emprestou um horizonte artificial,
do Otto um GPS Garmin Pilot III, do Othoniel um rádio VHF, para
usarmos em caso de pouso na água, e, dos SERAC (Serviço
Regional de Aviação Civil) 2 e 3, apoio irrestrito.
Fernando de
Noronha tem suas particularidades, o que nos exigiu uma autorização
escrita de seu Administrador, Sr. Sérgio José Salles Vaz, para
que pudéssemos pousar na ilha. Um outro problema que nos tomou
muito tempo foi o fato de Noronha não ter combustível, o que
nos fez correr atrás de barcos, em Natal e Recife, para levar
com segurança nossa preciosa carga.
Contávamos
com dois GPS: um Trimble e um Garmin, todas as cartas visuais (WAC)
do Rio a Natal, cartas de aerovias de baixa, da Jeppesen e o
Rotaer (Manual Auxiliar de Rotas Aéreas). No dia planejado, sábado,
6 de maio, chegamos às seis e meia da manhã e o Verner,
responsável técnico pela "Linda Mariana", já estava
fazendo as verificações finais para nossa saída. Nos deu mais
algumas dicas de ordem técnica e nos despedimos.
Uma
grande frente fria, que estava em São Paulo, era nossa preocupação,
mas o vento norte nos garantia ainda algumas horas antes que ela
chegasse. A condição pré-frontal nos caiu como uma luva, o céu
sem nuvens nos recebeu bem e partimos para a mais longa viagem
do U 5021. Saímos pelo litoral do Rio às sete da manhã e, após
cruzarmos a "boca da barra", tomamos a proa de Maricá.
De Maricá pedimos proa direta de João Monteiro, Vila Velha, e
nível 095. Esta rota nos coloca sobre a Serra do Mar deixando
Nova Friburgo um pouco à nossa esquerda e todo o lindo visual
do litoral um pouco longe, à direita. Em 2 horas e 20 minutos já
estávamos abastecendo em João Monteiro.
O
dia não poderia estar melhor e, na saída de Vila Velha,
pedimos ao controle Vitória proa direta para Porto Seguro. Tínhamos
que aproveitar o bom tempo para adiantar a viagem o máximo possível.
O litoral mais uma vez ficou longe e só depois de Caravelas caímos
um pouco para a direita para apreciar o belo litoral sul da
Bahia. Em vôo, telefonamos para o abastecimento de Porto
Seguro, quando faltavam 30 minutos para nossa chegada, e não
perdemos tempo na terra do descobrimento. Fizemos esta etapa em
2:35 h.
A
última etapa do primeiro dia foi quase toda seguindo as praias,
passando por Comandatuba, que tem uma excelente pista asfaltada,
Ilhéus, Itacaré e Morro de São Paulo. O Nader saiu detonando
as fotos, já que o dia estava perfeito até então. Bem na
chegada a Salvador, um grande cumulus desaguava sobre a
cidade, nos obrigando a alguns desvios para o interior e à
solicitação de pouso na pista 17 com um forte vento sul,
depois de 2:30 h. de vôo. A convite do Sub-Comandante da Base Aérea
de Salvador, Ten.Cel. Waldeísio, pernoitamos na própria Base,
onde tomamos um merecido banho de piscina, até o sol se por.
Enfrentamos
uma certa burocracia para sair da Base no segundo dia. Após
fazermos nosso plano de vôo para Recife, tivemos que dar
algumas explicações à Infraero e ao Tráfego, explicando
porque uma aeronave civil tinha pernoitado e estava partindo de
uma Base militar. Nossos argumentos convenceram a todos e saímos
na pretensão de darmos um tiro direto até o Aeroclube de
Encanta a Moça, no Recife. Mais um dia lindo! O sobrevôo de
Mangue Seco, na divisa da Bahia com Sergipe, a foz do São
Francisco, entre Sergipe e Alagoas, e toda a costa ao sul de
Maceió deixaram-nos maravilhados. Eu, mesmo conhecendo bem esse
litoral, por terra e ar, não me cansava de enaltecer sua
beleza. O Nader, sem acreditar no que via, ficou com calo nos
dedos de tanta foto que tirou! O preço desse passeio foi a
necessidade de mudar nossos planos e fazer uma parada para
abastecimento em Maceió. Sabíamos que o aeroclube de lá não
tinha abastecimento aos domingos e pousamos então no Aeroporto
Campo dos Palmares. Mais 45 litros de Avgas (gasolina de aviação),
depois de mais 2:45 h. Aliás, o preço do combustível é algo
que varia muito. É claro que a concorrência, ou a falta dela,
é fator fundamental, ou seja: onde não há, o preço chega a
R$ 2,10 o litro, onde ela existe baixa a R$ 1,40!
O
visual na saída de Maceió não era dos melhores, nossa proa
estava cheia de nuvens pesadas e tomamos a proa do litoral que
parecia melhor. Fomos pelas praias por algum tempo sem problemas
mas, próximo a Serrambi, em Pernambuco, tivemos que fazer
desvios para terra e para o mar, fugindo de muitas nuvens de
chuvas. Mantínhamos 1500 pés e nesta altura passamos por
Recife, com destino a Natal. Tínhamos programado chegar às
duas horas da tarde, para encontrar nossas mulheres, que
chegariam nesse horário, vindas do Rio. Por fim, chegamos a
Natal com tempo bom, e um atraso de uma hora no planejado. Nada
mau, para dois dias de viagem e 12:40 horas de vôo.
Encontramos as
meninas no aeroporto e nos instalamos na casa de nosso amigo, e
piloto da TRIP, Fernando Faro, o Nandão. Fizemos as malas com o
estritamente necessário, para ficarmos o mais leve possível. O
que sobrou pedimos para as meninas levarem. Antes de dormir,
demos uma repassada nas instruções do bote salva vidas e
tentamos nos desligar um pouco à beira da piscina.
Às
cinco da manhã, antes de o despertador tocar, todos já estavam
de pé! As nossas mulheres pegariam o avião das sete horas para
a ilha, e nós queríamos decolar antes. O tempo não estava dos
melhores e fomos obrigados a esperar um pouco mais. Tudo estava
nos devidos lugares. O bote atrás do banco do Nader, com cabos
prendendo os sacos plásticos com o rádio e o GPS. Se fosse o
caso, o Nader faria o pouso, e eu sairia com o bote, água e
equipamentos para fora do avião.
Mantivemos
contato com a tripulação da Trip que fazia a rota para Noronha
naquele dia, Comandante Augusto e o Co-piloto Omar, e ficamos
felizes ao saber por eles que aquela chuva que nos mantinha no
chão estava localizada apenas próximo a Natal, e que todo o
caminho até a ilha estava limpo. Tanque cheio, 5 horas de
autonomia, nosso plano de vôo era Fernando de Noronha,
alternando Natal. Na primeira abertura do campo, pedimos nossa
autorização:
"Torre
Natal, U 5021, para acionamento, Fernando de Noronha, visual, nível
095"
A adrenalina
estava a mil; chegara a hora! Nos cumprimentamos e fomos rumo ao
horizonte. Radial 076 de Natal! Voávamos visual, mas não
dispensávamos os auxílios dos instrumentos.
Realmente,
as chuvas estavam localizadas somente no litoral e, no mar,
algumas nuvens maiores longe à esquerda. À nossa frente, uma
linha de nuvens pequenas bem longe, quase no horizonte. O vento
no nível 095 estava muito forte de proa e pedimos ao controle
Natal para baixar para o 075. Eram 15 km/h de frente em média,
nos estimando um tempo total de 2:20 até nosso alvo. Falávamos
com o controle e depois com o Centro Recife, que recebia nosso
sinal do transponder. Isso nos deixou muito tranqüilos,
caso precisássem nos achar no mar. Mantínhamos, também,
contato com a tripulação da TRIP e com a tripulação de um
Bandeirante patrulha da Força Aérea, que voava pela área, e
havíamos conhecido quando na Base de Salvador.
Tudo
isso foi nos tranqüilizando e, para passar o tempo, simulamos
um pouso na água, escutávamos um pouco de Tim Maia e monitorávamos
constantemente os instrumentos do motor. Tudo corria bem, mas não
podíamos nos esquecer que estávamos preparados para o pior e não
poderíamos ser pegos de surpresa. Nossa vontade de ver a ilha
era enorme; não fazíamos idéia de como ela apareceria para nós
naquela imensidão azul. Já havíamos comemorado a marca da uma
hora e notamos que aquelas nuvens no horizonte estavam mais próximas
e, quem sabe, sobre Noronha. Quando faltavam uns quinze minutos
tivemos que baixar para evitar as formações. Fomos a 1500 pés
e tivemos o primeiro visual da ilha, meio embaçado por entre as
nuvens. Não era a chegada que imaginávamos, mas estávamos
perto. Um avião da Nordeste, vindo de Recife, se aproximava
para o pouso. Seríamos o número 2. Após o seu pouso,
perguntei as condições na aproximação, e ele reportou turbulência
de moderada a forte!
Entre o delírio
pela chegada e a atenção ao pouso, preferimos a segunda opção,
e larguei imediatamente a máquina fotográfica para auxiliar o
Nader no pouso. A pista fica entre vários morros, gerando uma
forte turbulência orográfica. A pista em uso era a 12 com
vento sul de 10 nós. Través pela direita, concentração
total, aproximação final trabalhada e pouso perfeito! Alguns
segundos depois, nossos gritos de comemoração; chegamos bem!
Chegava
a ser engraçado notar o espanto das pessoas quando viam o
"aviãozinho" em que tínhamos chegado. Nos chamavam
de loucos para cima. O Freire, que cuida do recém privatizado
Aeroporto de Noronha, nos deu toda a força.
O controle de
pessoas em Noronha é total! Faz-se a imigração, quando se
informa a pousada em que se vai ficar, o dia da volta, e se paga
a taxa de preservação ecológica referente ao número de dias
de estadia.
Nossa idéia
era ficar três dias, contando o da chegada, e voltar a Natal na
quinta-feira, dia 11. As pousadas são bem simples; na
realidade, quase todas são casas de moradores transformadas
para receber os visitantes. Ficamos na da Tia Zete, à beira da
BR 363, a menor rodovia federal do Brasil, com 7,5 km! Através
da Zete, fomos apresentados ao Charamba, que foi nosso guia. O
Charamba nos mostrou toda a ilha que, apesar do tempo ruim, com
muita chuva, normal nesta época do ano, é maravilhosa. Se você
algum dia tiver a oportunidade de ir, não tenha dúvida, vá!
É um lugar muito especial.
Mas nossa atenção
estava na volta. Com uma autonomia remanescente que nos permitia
o retorno ao continente. Com duas horas de estimado para a
volta, sem contar o vento a favor, teríamos combustível para o
alternado, João Pessoa.
Mas nem sempre
tudo dá certo. Na quarta feira o tempo amanheceu claro e
decidimos aproveitar as boas condições para voltar. Ao
chegarmos ao aeroporto, percebemos que "Linda Mariana"
estava meio inclinada de lado. Tínhamos estacionado o Echo na
grama e, com a chuva, uma parte do terreno encharcou mais que a
outra e a roda da direita afundara um pouco. A conseqüência
foi um vazamento de combustível pelo suspiro do tanque, por
causa do desnivelamento, o que nos fez cancelar nossa volta.
Agora só com o combustível vindo do continente poderíamos
voltar, já que tínhamos perdido cerca de quinze litros.
O
Freire, do aeroporto, logo nos colocou em contato com o Capitão
Peres, que estava saindo de barco de Natal para Noronha naquela
noite, e ele logo se prontificou a conseguir os galões novos e
o Avgas para nós. Sua chegada estava prevista para sexta de
madrugada. Aproveitamos o resto do dia, e o dia seguinte, para
relaxar e curtir o passeio de barco, os mergulhos na Praia do
Sancho e no naufrágio, perto do porto, e admirar um lindo por
do sol no mirante entre a Cacimba do Padre e o Boldró.
Na
sexta, bem cedo, fomos ao porto e pegamos nossa encomenda, que
finalmente chegara. Corremos para o aeroporto, fizemos o teste
de qualidade do combustível e iniciamos o abastecimento. Sem
muita demora, arrumamos tudo, nos despedimos dos amigos que
fizemos na ilha e entramos para os cheques finais. Neste ponto
aconteceu a única pane da viagem, o compensador parou de
funcionar, trocamos o fusível e tudo estava resolvido. Agora
sim, prontos para a volta, decolamos, fizemos um rápido sobrevôo
da ilha e tomamos a proa de Natal. Os pilotos da TRIP que haviam
chegado naquele dia nos disseram que o tempo estava bom, sem
muitas nuvens. Subimos para o nível de vôo 085 e, não muito
longe à nossa frente, algumas nuvens estavam se desenvolvendo.
Chegamos mais próximo e achamos melhor subir, para passar por
cima. À medida que subíamos as nuvens vinham junto e, ao
atingir o nível 105 (10.500 pés) vimos que não passaríamos.
Vamos mais alto, 12500 pés. Não vai dar!
As
formações nessa área se apresentam em linhas no sentido do
vento (sudeste), través de cauda para nós, e, apesar de serem
verdadeiros muros brancos, não são muito largas, algo que
cinco ou dez minutos de vôo são o suficiente para cruzar. Foi
o momento mais crítico da viagem. Decidimos curvar à esquerda
e seguir paralelo à formação, baixando até que pudéssemos
ver sua base e escolher por onde cruzar. Chegamos a pensar no
retorno a Noronha, mas estávamos nas 100 milhas, meio do
caminho, e, quando atingimos 1500 pés, avistamos a base das
nuvens com algumas chuvas e várias opções de passagem. Alívio
geral!
Céu
azul pela frente até quase o litoral, onde uma parede de chuva
dificultava nossa passagem. Faltavam quinze minutos para Natal e
resolvemos encarar a água de frente. Em alguns momentos a
visibilidade ficou bem restrita, mas fomos encontrar um lindo
sol e as dunas bem na nossa frente. Daí para o pouso foi num
estalo, estávamos felizes por ver terra novamente. Sentíamos
uma sensação estranha, estávamos a quase 13 horas de vôo de
casa, mas parecia que a viagem tinha chegado ao fim. Afinal, tínhamos
conquistado nossas 400 milhas sobre o mar!
Nossa
volta a partir de Natal foi rápida. No mesmo dia da saída de
Noronha, continuamos direto, até o pernoite em Maceió. Ao
nascer do sol, saímos de Maceió, com pousos para abastecimento
em Salvador e Porto Seguro, a partir de onde seguimos pelo
litoral, encarando uma frente fria vinda da região Sudeste.
Pousamos ao pôr do sol em João Monteiro, Vila Velha, para o último
pernoite.
Nossa última
decolagem da viagem foi com céu totalmente aberto, pós-frente,
e tomamos uma reta para Maricá. O tempo no Rio de Janeiro,
nessa manhã, estava especialmente bonito e aproveitamos para
dar aquela passagem por São Conrado antes de pousarmos
às 10:15h no CEU (Clube Esportivo de Ultraleves), onde fomos
recebidos com festa pelos amigos e familiares.
Não
poderia terminar sem agradecer aos amigos que tanto nos ajudaram
nessa aventura: ao Salgueiro do SERAC 3; ao Augustinho, que
montou o painel do nosso bólido; ao Verner, com sua dedicação
total; e a todos os outros, já citados anteriormente ou não,
mas que, de uma forma ou de outra, torceram por nós. Obrigado!

Resumo
|

OCTÁVIO FIÃES
& NADER COURI
|

SUPER ECHO - U.5021
|
|
DATA:
TRECHO:
DISTÂNCIA:
TEMPO DE VÔO:
AERONAVE:
PILOTO:
CONTATO:
|
06
à 14 de maio de 2000
Rio / Fernando de Noronha / Rio
5.200 km
26 horas
Super Echo / Rotax 912
Octávio Fiães e Nader Couri
Nadercouri@aol.com
|
|