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O piloto do litoral, acostumado com a segurança das praias,
tem uma natural timidez de enfrentar as rotas do continente.
Contrariando este comportamento, e tendo como objetivo a
realização de um antigo sonho, de visitar Floriano, minha terra
adotiva, no oeste do Piauí, convidei para aquela jornada os
companheiros de vôo: Comandante Thomé Ikeda com o seu "Fascination";
Xavier e Arthur Widman com o "Flamingo"; e eu pilotando um "Mistral",
em companhia de João Carlos Flores, um piloto excepcional...
Decidimos fazer uma rota que nos levasse até os "Lençóis
Maranhenses". E assim, no dia 17 de junho de 2003, partimos para o
histórico vôo: Recife - Caruarú - Serra Talhada - Araripina -
Floriano – Teresina - Parnaíba e Barreirinha. A volta seria feita
pelo litoral, com parada em Jericoacoara, belíssima praia do litoral
cearense.
A única dificuldade encontrada era dispor de gasolina Avgas
nos pontos previamente determinados. Com a ajuda de um amigo, Daniel
Moreira,
de Patos/PB, estocamos o combustível em tambores de trinta e
cinqüenta litros e distribuímos setecentos litros ao longo da rota.
Estava assegurado o abastecimento, e a logística traçada funcionou a
contento.
 
Logo ao sair do Recife, uma pane na decolagem do Mistral a
cem pés, foi bem sucedida pois ainda restava pista à minha frente e
assim pousei alem da intercessão sem problemas. A mangueira da linha
de combustível, em atrito com a mangueira d'água fez um orifício por
onde vazava gasolina. Passei a ter mais cuidado com a linha de
distribuição de gasolina, sendo esta a primeira lição a passar aos
nossos pilotos.
 
Planejamos viajar no máximo cinco horas por dia, saindo ao
nascer do sol e curtindo os dez dias de férias com um espírito
macunaímico.
Fomos informados que o melhor período do verão nos Lençóis,
para voar, é nos meses de maio, junho e julho. A partir de agosto,
os ventos fortes fazem da volta um suplicio e as lagoas começam a
secar. Assim escolhemos os meados de junho, embora coincidindo com o
inverno em Pernambuco.
Após uma semana de chuvas fortes no Recife, no dia 17 de
junho, dia da nossa saída, o céu estava radiantemente azul e os
ventos calmos.
Partimos para Caruaru voando apenas uma hora, tendo o nosso
hospitaleiro comandante Tomé, gentilmente nos oferecido uma bela
ceia sob um luar maravilhoso, comemorando o inicio da aventura.
No dia seguinte, às seis e trinta horas, decolamos ao
nascer do sol, deixando a camada se dissipar lentamente e, após duas
horas (às nove trinta), pousávamos em Serra Talhada para o primeiro
abastecimento.
Em quinze minutos decolamos para Araripina (260kms) onde
chegamos depois de duas horas e quinze minutos de um tranqüilo vôo.
Estávamos maravilhados com a viagem, e as máquinas se comportavam
decentemente, tendo atravessado todo o estado de Pernambuco sem
problemas.
Dia 19 de junho: saída bem cedo para Floriano. Neste
trecho tivemos as melhores condições de vento, tendo atingido uma
Ground Speed de 174 km/h e chegando com menos de uma hora e meia do
tempo estimado. Até aí não tivemos nenhuma turbulência e deu para
curtir o belíssimo visual das serras, barragens, florestas e a nossa
conhecida topografia dos sertões, com muito conforto.
No dia seguinte deixamos Floriano com destino a
Parnaíba (270 kms) e, quando estávamos a trinta minutos de
Teresina, o controle informou que o teto estava muito baixo e só
permitia Vôos IFR. Estranhamente nos informou este controlador, que
o aeroporto de Teresina não permitia pouso de Ultraleves e nós
deveríamos pousar numa pista particular: Aeródromo Nossa Senhora de
Fátima, onde mais tarde pousaríamos.
Com a impossibilidade de prosseguir, decidimos voltar para
Floriano, a quase duzentos kms.
Tendo feito uma boa navegação, sabia que havia uma pista em
Amarante (70 km de Floriano) e nosso Comandante Tomé, com o seu
Fascination que sempre ia obviamente à nossa frente, fez vôo rasante
e constatou as boas condições da mesma.
Em poucos minutos as três aeronaves se viram cercadas por
crianças, adultos, cachorros, motos, bicicletas, todos curiosos para
admirar os aviões, pela raridade de pousos naquela pista. Após duas
horas, Teresina informava ter a camada se dissipado e às treze horas
e quarenta e cinco minutos estávamos na capital piauiense.
Alteramos o programa e resolvemos pernoitar em Teresina
para, no dia seguinte, prosseguir para Parnaíba (270 kms), onde
chegamos ás dez horas,
pousando no Aeródromo Nossa Senhora de Fátima.
Degustamos os decantados camarões do Piauí na Praia de Luiz
Correia (o porto), fizemos depois um passeio pela cidade e, às
quinze horas, rumamos para o nosso destino final, Barreirinhas, nos
Lençóis Maranhenses.
Ao decolar da cidade de Parnaíba, nos deslumbramos com a
grandiosidade e beleza do Delta do Parnaíba e, depois dos pequenos
lençóis, estávamos nos grandes lençóis, fascinados com a beleza
feita de água e areia.
Estas emoções motivaram uma poética dissertação da viagem
entre dunas e lagoas que a cada instante mudavam de forma e de cores
nos deixando deslumbrados com o cenário.
Passamos três dias nesta oitava maravilha do mundo e fomos
pelo rio Preguiça até Caburé, nome que fazia jus ao nosso estado de
espírito que se iniciara desde a saída do Recife.
Dia 24, o regresso: - pouso em Parnaíba e chegada a
Jericoacoara, belíssima praia do Ceará, onde pernoitamos, tendo
enfrentado ventos de mais de 40 kms por hora.

Dia 25, Jericoacoara – Touros: (seiscentos e trinta
quilômetros) Voamos com ventos acima de trinta nós, tendo o Mistral
se escorado em 71 km/h. Abastecimento em Itarema e, às onze e
quarenta, estávamos em Fortaleza (Aeródromo Feijó), onde
encontramos aquela figura simples e amiga do Brigadeiro Sabino, que
nos levou para comprarmos a gasolina para os nossos estômagos, pois
ainda estávamos em jejum.
Uns quarenta e cinco minutos depois
partimos para Aracati, abastecemos e, sem perda de tempo, rumamos
com ventos fortes para Touros, fazendo uma parada em Timbau do
Norte, com receio do consumo elevado de gasolina, usando os vinte
litros que conduzíamos sempre abaixo das nossas "poltronas".
Um aperto total. Sem almoçar e quase sem tomar café
chegamos às dezessete e quinze em Touros onde, exaustos,
encontramos o nosso hospitaleiro Adolfo Pereira Carneiro que nos
acolheu com a sua conhecida alegria e fidalguia na sua Fazenda
"Bebida Velha".
Até então não tinha sentindo nenhum cansaço ou desconforto.
Com o embalo dos ventos e a fome saciada tivemos uma excelente
dormida na praia do Peroba e só saímos para o nosso destino final,
Recife, às dez horas, fazendo escala em João Pessoa.
Às quinze e trinta, estávamos aterrissando no Encanta Moça
(Recife) para dizer que era possível voar 32 horas pelos sertões,
brejos e veredas, fazendo uma monumental viagem, sem atropelos e
curtindo uma paisagem indescritível.

Podemos agora dizer aos nossos pilotos apaixonados pela
aviação experimental, que a beleza das rotas do continente e a
segurança do vôo, faz desta incursão uma experiência inesquecível.
Desfrutei nesses dez dias do convívio amigo dos meus
companheiros de viagem, que acreditaram desde o inicio no meu
projeto e me ajudaram a escrever esta interessante mensagem de
confiança e deslumbramento, com uma esportividade exemplar.

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Paulo Meireles, João
Carlos Flores, Arthur Widman e
Edward Xavier
-
E,
enquanto redigia o relato desta aventura, meus pensamentos e emoções
viajaram,
embarcaram nas asas do tempo - o passado e o presente se
uniram e escrevi o texto:
"Asas nos Lençóis: Uma fascinante viagem a Floriano e Lençóis
Maranhenses"

28 de julho de 2003
Paulo Meireles
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