De Recife aos "Lençóis Maranhenses"

- Thomé Ikeda, Edward Xavier, Arthur Widman, João Carlos Flores e Paulo Meireles -

O piloto do litoral, acostumado com a segurança das praias, tem uma natural timidez de enfrentar as rotas do continente.

Contrariando este comportamento, e tendo como objetivo a realização de um antigo sonho, de visitar Floriano, minha terra adotiva, no oeste do Piauí, convidei para aquela jornada  os companheiros de vôo:  Comandante Thomé Ikeda com o seu "Fascination"; Xavier e Arthur Widman com o "Flamingo"; e eu pilotando um "Mistral", em companhia de João Carlos Flores, um piloto excepcional...

Decidimos fazer uma rota que nos levasse até os "Lençóis Maranhenses". E assim, no dia 17 de junho de 2003, partimos para o histórico vôo: Recife - Caruarú - Serra Talhada - Araripina - Floriano – Teresina - Parnaíba e Barreirinha. A volta seria feita pelo litoral, com parada em Jericoacoara, belíssima praia do litoral cearense.

A única dificuldade encontrada era dispor de gasolina Avgas nos pontos previamente determinados. Com a ajuda de um amigo, Daniel Moreira, de Patos/PB, estocamos o combustível em tambores de trinta e cinqüenta litros e distribuímos setecentos litros ao longo da rota. Estava assegurado o abastecimento, e a logística traçada funcionou a contento.

Logo ao sair do Recife, uma pane na decolagem do Mistral a cem pés, foi bem sucedida pois ainda restava pista à minha frente e assim pousei alem da intercessão sem problemas. A mangueira da linha de combustível, em atrito com a mangueira d'água fez um orifício por onde vazava gasolina. Passei a ter mais cuidado com a linha de distribuição de gasolina, sendo esta a primeira lição a passar aos nossos pilotos.

Planejamos viajar no máximo cinco horas por dia, saindo ao nascer do sol e curtindo os dez dias de férias com um espírito macunaímico.

Fomos informados que o melhor período do verão nos Lençóis, para voar, é nos meses de maio, junho e julho. A partir de agosto, os ventos fortes fazem da volta um suplicio e as lagoas  começam a secar. Assim escolhemos os meados de junho, embora coincidindo com o inverno em Pernambuco.

Após uma semana de chuvas fortes no Recife, no dia 17 de junho, dia da nossa saída, o céu estava radiantemente azul e os ventos calmos.

Partimos para Caruaru voando apenas uma hora, tendo o nosso  hospitaleiro comandante Tomé, gentilmente nos oferecido uma bela ceia sob um luar maravilhoso, comemorando o inicio da aventura.

No dia seguinte, às seis e trinta horas, decolamos ao nascer do sol, deixando a camada se dissipar lentamente e, após duas horas (às nove trinta), pousávamos em Serra Talhada para o primeiro abastecimento.

Em quinze minutos decolamos para Araripina (260kms) onde chegamos depois de duas horas e quinze minutos de um tranqüilo vôo. Estávamos maravilhados com a viagem, e as máquinas se comportavam decentemente, tendo atravessado todo o estado de Pernambuco sem problemas.

Dia 19 de junho: saída bem cedo  para Floriano. Neste trecho tivemos as melhores condições de vento, tendo atingido uma Ground Speed de 174 km/h e chegando com menos de uma hora e meia do tempo estimado. Até aí não tivemos nenhuma turbulência e deu para curtir o belíssimo visual das serras, barragens, florestas e a nossa conhecida topografia dos sertões, com muito conforto.

No dia seguinte deixamos Floriano com destino a Parnaíba (270 kms) e, quando estávamos a  trinta  minutos de Teresina, o controle informou que o teto estava muito baixo e só permitia Vôos IFR. Estranhamente nos informou este controlador, que o aeroporto de Teresina não permitia pouso de Ultraleves e nós deveríamos pousar numa pista particular: Aeródromo Nossa Senhora de  Fátima, onde mais tarde pousaríamos.

Com a impossibilidade de prosseguir, decidimos voltar para Floriano, a quase duzentos kms.

Tendo feito uma boa navegação, sabia que havia uma pista em Amarante (70 km de Floriano) e nosso Comandante Tomé, com o seu Fascination que sempre ia obviamente à nossa frente, fez vôo rasante e constatou as boas condições da mesma.

Em poucos minutos as três aeronaves se viram cercadas por crianças, adultos, cachorros, motos, bicicletas, todos curiosos para admirar os aviões, pela raridade de pousos naquela pista. Após duas horas, Teresina informava ter a camada se dissipado e às treze horas e quarenta e cinco minutos estávamos na capital piauiense.

Alteramos o programa e resolvemos pernoitar em Teresina para, no dia seguinte, prosseguir para Parnaíba (270 kms), onde chegamos ás dez horas, pousando no Aeródromo Nossa Senhora de  Fátima. Degustamos os decantados camarões do Piauí na Praia de Luiz Correia (o porto), fizemos depois um passeio pela cidade e, às quinze horas, rumamos para o nosso destino final, Barreirinhas, nos Lençóis Maranhenses.

Ao decolar da cidade de Parnaíba, nos deslumbramos com a grandiosidade e beleza do Delta do Parnaíba e, depois dos pequenos lençóis, estávamos nos grandes lençóis, fascinados com a beleza feita de água e areia.

Estas emoções  motivaram uma poética dissertação da viagem entre dunas e lagoas que a cada instante mudavam de forma e de cores nos deixando deslumbrados com o cenário.

Passamos três dias nesta oitava maravilha do mundo e fomos pelo rio Preguiça até Caburé, nome que fazia jus ao nosso estado de espírito que se iniciara desde a saída do Recife.

 

Dia 24, o regresso: - pouso em Parnaíba e chegada a Jericoacoara, belíssima praia do Ceará, onde pernoitamos, tendo enfrentado ventos de mais de 40 kms por hora.

 

Dia 25, Jericoacoara – Touros: (seiscentos e trinta quilômetros) Voamos com ventos acima de trinta nós, tendo o Mistral se escorado em 71 km/h. Abastecimento em Itarema e, às onze e quarenta, estávamos em Fortaleza (Aeródromo  Feijó), onde encontramos aquela figura simples e amiga do Brigadeiro Sabino, que nos levou para comprarmos a gasolina para os nossos estômagos, pois ainda estávamos em jejum.

Uns quarenta e cinco minutos depois partimos para Aracati, abastecemos  e, sem perda de tempo, rumamos com ventos fortes para Touros, fazendo uma parada em Timbau do Norte, com receio do consumo elevado de gasolina, usando os vinte litros que conduzíamos sempre abaixo das nossas "poltronas".

Um aperto total. Sem almoçar e quase sem tomar café chegamos  às dezessete e quinze em Touros onde, exaustos, encontramos o nosso hospitaleiro Adolfo Pereira Carneiro que nos acolheu com a sua conhecida alegria e fidalguia na sua Fazenda "Bebida Velha".

Até então não tinha sentindo nenhum cansaço ou desconforto. Com o embalo dos ventos e a fome saciada tivemos uma excelente dormida na praia do Peroba e só saímos para o nosso destino final, Recife, às dez horas, fazendo escala em João Pessoa.

Às quinze e trinta, estávamos aterrissando no Encanta Moça (Recife) para dizer que era possível voar 32 horas pelos sertões, brejos e veredas, fazendo uma monumental viagem, sem atropelos e curtindo uma paisagem indescritível.

Podemos agora dizer aos nossos pilotos apaixonados pela aviação experimental, que a beleza das rotas do continente e a segurança do vôo, faz desta incursão uma experiência inesquecível.

Desfrutei nesses dez dias do convívio amigo dos meus companheiros de viagem, que acreditaram desde o inicio no meu projeto e me ajudaram a escrever esta interessante mensagem de confiança e deslumbramento, com uma esportividade exemplar.


- Paulo Meireles, João Carlos Flores, Arthur Widman e Edward Xavier -

E, enquanto redigia o relato desta aventura, meus pensamentos e emoções viajaram,
embarcaram nas asas do tempo - o passado e o presente se uniram e escrevi o texto:

"Asas nos Lençóis: Uma fascinante viagem a Floriano e Lençóis Maranhenses"

28 de julho de 2003

Paulo Meireles

Ficha Técnica

Data: 17 de Junho de 2003
Trecho: Recife/PE - Barreirinhas/MA - Recife/PE
Distância Voada:  3.157 Km
Tempo Total de Vôo: 31:10 horas
Aeronaves: 1 Flamingo, 1 Fascination e 1 Mistral
Pilotos:

Ikeda, Xavier, Arthur, João Carlos e P. Meireles

Velocidade Máxima: 174 Km/h
Velocidade Mínima: 71 Km/h
Consumo: 510 litros por aeronave
Contato com Paulo Meireles: pnmeireles@uol.com.br