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Maio
de 2001
Há
um ano, trabalhávamos no plano de vôo para o interior de São
Paulo (região de São José do Rio Preto). Visitamos todas as
escalas propostas, marcamos os respectivos landmarks no GPS,
verificamos a possibilidade de abastecimento, etc.., etc.
Preparamos
nossas maravilhosas maquininhas (dois Fox V2) com todo carinho
para a aventura e decidimos que a partida seria em meados de
abril, ótima época para se voar. Não tínhamos nenhuma
experiência neste tipo de empreitada. Até então, minha maior
"pernada" tinha sido de 01h
30m, quando voamos de Maricá até Rio das Ostras.
Foi
quando começaram os imprevistos que nos levariam a uma
aventura muito mais fantástica. Poubel decidiu inaugurar uma
Escola de Pilotagem de Ultraleves
em Maricá, no mês de maio. Sendo assim, resolvemos
adiar a tão esperada viagem para o mês de junho.
Foi
quando surgiu a notícia do 1° Encontro Nacional de Ultraleves,
em Porto Seguro. Como quem não quer nada, falei pro Poubel ,
como deveria ser interessante uma viagem até lá. O Poubel riu
e como quem também não quer nada, concordou. Naquela hora,
tive a absoluta certeza de que nossa viagem para São Paulo
estava adiada. É claro que iríamos pra Bahia !!!!
Passado
o entusiasmo inicial causado pela mudança de planos, "caímos
na real" e tratamos de programar nosso novo curso. Quase
900 km em linha reta, com dificuldades de abastecimento, ventos
contrários etc..
Nesta
ocasião, navegando pela Internet, descobri o fórum da
Ultraleve.com.br, onde vários experientes pilotos trocavam idéias
sobre o evento. Pedi ajuda e, como era de se esperar, fui
prontamente atendido
pelo Comandante Rosendo ("fera", como vim a saber mais
tarde, neste tipo de vôo). Ele me passou o telefone do
Comandante Nallin (outra "fera"), que me enviou um
plano de vôo.
Conferimos
com o plano estudado por nós, e verificamos que a coisa estava
indo bem. Nossa confiança aumentou e começamos a preparação para a grande aventura. Que
sobressalentes levar, ferramentas, bagagem, tanque extra,
uniforme (é claro !!!), adaptação pro VHF ("Foquinhos"
normalmente não carregam rádio), e a excitação só aumentando. Meus amigos não pilotos me
tachando de maluco, meus amigos pilotos me encorajando.
O
Poubel , com seu
típico sorriso maroto, só me provocando e perguntando se seria
"macho" o suficiente pra enfrentar o desafio. Macho não
sei, mas maluco, com certeza...
13
DE JUNHO DE 2001
Após
infindáveis horas de planejamento, marcamos nossa saída para
manhã do dia 13 de junho, uma quarta-feira. Nosso plano era
voar até Campos –RJ, um trajeto de 208 km, com
ETE de 02h 48m.
Nosso
vôo, logicamente seria no visual, só que combinamos que o
Poubel iria fazer a navegação pela bússola e carta e eu pelo
GPS. Queríamos comparar as navegações.
Decolamos
por volta das 08 horas da manhã (local) e, vinte minutos após
a decolagem, nos deparamos com uma formação de nevoeiro muito
densa. Estávamos sobre a camada, voando a cerca de 1200 pés.
Foi uma das coisas mais lindas do vôo. Os quinze minutos
seguintes foram de puro deleite.

Estar
sobre as nuvens - momentos de puro deleite...
Embora
a formação fosse cerrada, alguns picos de montanhas rompiam a
camada e eu falei comigo mesmo: já valeu a viagem !!! à nossa
direita, dava pra avistar o mar e isto me dava uma tranqüilidade
muito grande. Caso tivesse algum problema no motor, poderia
contar com a praia como apoio.
02
horas e 30 minutos após a decolagem de
Maricá, já se avistava Campos e o belo visual do Rio
Paraíba. Até aqui, o sistema de transferência de combustível
do tanque extra para o tanque inferior esquerdo funcionou
perfeitamente.
Não
conhecia o Aeródromo de Campos,
mas a indicação do GPS foi precisa. Pela primeira vez, nesta
viagem, utilizei o rádio.
Devo
confessar que não tinha muita intimidade com a fonia. A freqüência
da rádio Campos já estava anotada num papel preso no painel.
Estes papéizinhos me ajudaram muito na viagem, pois além da
freqüência local, me informava a latitude, longitude, distância,
ETE (tempo estimado em rota) e quantidade de combustível a ser
gasta. Não coloquei os numerais de indicação das pistas, e
senti falta disto.
Neste
trecho da viagem, já senti uma falta enorme de comunicação
com o Poubel (ele não levou rádio). Decididamente, não foi
uma boa idéia abrir mão da comunicação entre nós. Não
farei isto de novo. Esta falta de comunicação causa um bocado
de estresse. A toda hora, tentava estabelecer contato visual e
quando não conseguia, vinha logo a dúvida: será que houve
algum problema?, teve que pousar? Foi algo muito desgastante
durante toda a viagem.

Atravessar
o Rio Paraíba e, no pouso em Campos, ser orientado por um "Parador".
Atravessando
o Rio Paraíba, tentei contato via rádio com
o rádio Campos. Não
houve dificuldades, e a nota de destaque, foi quando reportei o
pouso, o controlador me disse
para seguir as orientações do "Parador".
Sabe
aquele indivíduo que fica com duas "raquetes", uma em cada
mão, orientando o estacionamento das aeronaves?
Eu já tinha visto nos aeroportos, estacionando os "Boeings"
da vida. Confesso que ao ver o Parador orientando
este "comandante" que vos fala e sua "enorme
aeronave", me deu vontade de rir. Agüentei firme e sério, e
"cortados os motores" desci do avião e cumprimentei
o diligente funcionário.
Poubel
pousou em seguida e seguiu o mesmo ritual. Logo apareceu um
funcionário para o abastecimento. Abastecemos, fomos recebidos
pelo pessoal do aeroclube (Turma nota dez, que
vêm com muita competência, revitalizando o Aerodesporto
naquela cidade).
Tínhamos
voado 02 horas e 50min desde a decolagem. A navegação previa
02 horas e 48 min. Erramos por 02 minutos. Em se tratando de vôo
com ultraleves básicos, achamos o resultado excelente. Isto
aumentou ainda mais nossa confiança.

Brancoli,
Careca e Poubel em Campos/RJ.
Estávamos
nos preparando para o almoço, quando avistamos, pousado mais a
frente, um helicóptero Robinson R44 com um logotipo do ENUL.
Ficamos curiosos e descobrimos que se tratava do helicóptero de
apoio da turma de Ribeirão Preto (Os Piratas do Ar) que estava
indo a Porto Seguro de trike. Dez minutos depois, o Gerson e o
Kiko, cada um em seu trike , pousaram, também estacionados pelo
Parador. Fique impressionado com as máquinas dos Paulistas.
Trike com motor Rotax 912 , GPS Garmin ColorMap, Transponder
(com módulo C), rádio VHF, paraquedas balístico, etc.., etc..

Os
"Piratas do Ar", de Ribeirão Preto/SP, no aeroporto
de Campos/RJ.
Feitas
as apresentações, decidimos decolar após o almoço, juntos,
para o Aeródromo de João Monteiro-Vila Velha/ES. Em dez
minutos de conversa, já estávamos mais que entrosados.
Decolamos
por volta das 15 horas locais, mas antes da decolagem tive que
resolver um "problema meio complicado": Preencher o
maldito plano de vôo.
Não
adiantou de nada tentar
convencer o pessoal do Infraero de que eu era apenas um pequeno
ultraleve básico, voando a 80 km/h (em vento calmo) a 500 pés
(165 m) de altura, por conta e risco próprio, sem interceptar
TMA’s, airways, e
sei lá mais o que.
Foi
um parto, menos pela complicação do tal formulário, mas mais
por minha má vontade em preenchê-lo. Uma funcionária
simpática se mostrou interessada em me ajudar e finalmente,
guardando uma cópia como "cola" para necessidades futuras,
decolamos rumo a Vila Velha.
O
tempo estava magnífico, com uma leve brisa de través. Esta
pernada até Vila Velha foi um dos pontos altos da aventura. O
pessoal dos Trikes e do helicóptero mantinham fonia numa freqüência
"própria". Era uma farra total. O Kiko (piloto de um
dos trikes) dava um verdadeiro show de entusiasmo e alegria.

Os
trikes dos "Piratas do Ar" e os "Foquinhos" de
Maricá, saindo de Campos/RJ.
Me
senti pertencendo a uma tribo especial, daqueles que fazem, do
"vôo descomplicado", uma fonte de imenso prazer. Olha
lá! que visual "chique nos úrtimo", gritava o Kiko
com seu inconfundível sotaque paulista. O Gérson respondia :
Olha a chuva !!!, vai estragar o seu penteado MANOOOOOO!!!!!

Um
visual "chique nos úrtimo".
O
helicóptero orientava nosso vôo em ala, para conseguir
melhores ângulos para fotos. O Poubel, sem fonia, perdia a
festa e se mantinha no visual.
Pela
segunda vez na viagem, agradeci a Deus o privilégio por estar
vivenciando tudo aquilo, e novamente constatei: Só por isso, "Já valeu a viagem".
Pousamos
em Vila Velha bem antes do por do sol e mais uma vez a navegação
bateu em cima do esperado. Eu estava muito cansado mas
extremamente feliz.
O
pessoal do aeroclube nos apoiou, nos transportando para um hotel
perto da praia. Nossas "maquininhas maravilhosas",
ficaram abastecidas e hangaradas. Até aqui tudo "chic nos
úrtimo".

Vila
Velha nos concedeu o privilegio do pernoite.
A
intenção era decolarmos no dia seguinte, ao nascer do sol,
rumo a Caravelas, na Bahia, com a navegação prevendo 04h e 08
min de vôo direto, com alternativa de pouso em São Mateus/ ES.
14
DE JUNHO DE 2001
Às
06h 30m (local), da manhã do dia 14, seguimos do hotel rumo ao
Aeródromo, e quando abrimos o hangar, constatamos que o tanque
extra do avião do Poubel (60 litros) tinha rompido a torneira
e todo o seu conteúdo tinha se perdido.
O
Poubel cometeu o erro de apoiar a torneira do tanque com uma
prancheta de madeira e com o peso, a torneira degolou na base.
Mudamos a posição do tanque, abastecemos novamente e usamos
uma mangueira extra que levávamos para servir como pescador e a
coisa ficou aceitável.
Neste
ínterim, o pessoal dos trikes já estava pronto
e decolaram um pouco na nossa frente. Sobrevoamos Vitória,
e ao passarmos sobre o complexo siderúrgico de Tubarão,
aconteceu algo engraçado, mas um pouco assustador: estávamos
voando baixo (600 pés) e ao cruzarmos sobre umas chaminés tipo
flare (aquelas que em vez de soltar fumaça, soltam uma língua
de fogo), o Poubel foi pego por uma tremenda corrente
ascendente, indo parar a quase 2000 pés, sentindo "um
calor inexplicável nas
partes de baixo". Depois,
quando nos contou o ocorrido, a gargalhada foi geral.

Sobre
"Tubarão"
- chaminés que "cospem fogo".
Nos
afastando de Vitória, rumo Norte, entramos numa área de
extensa plantação de eucaliptos que abastecem a fábrica de
celulose Aracruz.
Voar
sobre este mar de eucaliptos, me trouxe um certo desconforto,
pois um pouso naquelas condições, seria certamente uma "arborização".
Subir mais não dava, pois pequenas mas freqüentes formações
de
CB’s insistiam em barrar minha subida. A saída foi
sair para a direita, em direção ao mar, embora isso me
causasse um desvio no rumo previsto na navegação. Tinha
perdido contato com os trikes e o Poubel nem sempre estava à
vista, causando o tão indesejável estresse.

Um
"mar de eucaliptos" - é belo mas preocupante.
Ao
cruzarmos o través da
cidade de Linhares, o Poubel se aproximou e sinalizou com as mãos
a intenção de pousarmos nesta
cidade. Como não estava previsto na navegação, suspeitei de
algum problema, e prontamente o segui para o tráfego e pouso.
Ao pousarmos, Poubel relatou um ruído estranho no motor, o que
o motivou a pousar, além de uma urgente necessidade de "drenar
o piloto".
Funcionamos
o motor e aparentemente não notamos nada de extraordinário.
Em
Linhares, a pista do aeródromo (novíssima) é utilizada por um
grupo de sortudos aeromodelistas que a tem só pro seu
divertimento. Disseram, que após a pintura final da pista, éramos
as primeiras "aeronaves de verdade" a pousar por lá.
Meia
hora mais tarde já estávamos voando. Combinei de seguir o
Poubel (ele iria na frente), em virtude da suspeita de algo
errado no seu motor. Pra variar, ele sumiu na fumaça, e resolvi
seguir meu caminho sozinho, obviamente, mais uma vez, angustiado
com o destino do
meu teimoso ala.
No
rumo Linhares – Caravelas, sobrevoei o aeródromo de São
Mateus e visualizei o helicóptero do pessoal de Ribeirão Preto
pousado. Chamei pela fonia e me informaram que os trikes já
tinham decolado rumo a Caravelas, depois de fazer escala
por ali.
Perguntei
se tinham notícias do Poubel, e me disseram que não. Onde foi
parar o "cara" ,cacete ?????? Cruzei direto, sem pousar e 15
minutos depois, voltei a falar com o helicóptero e, boas
notícias, já tinham o Poubel no visual, e
ele estava se preparando para o pouso em São Mateus. Ufa!!!
Menos mal.
Segui
mais tranqüilo e lá pelo meio dia pousei em Caravelas.
É
um aeródromo ,como diria, "meio esquisito". Fica
distante da cidade, num local meio deserto, com duas
pistas próprias para receber aeronaves militares. O
procedimento da fonia foi tranqüilo e encontrei um magnífico
Tucano da FAB estacionado
por lá (sou fã de carteirinha deste avião). O pessoal dos
trikes já tinham pousado e me ofereceram uma deliciosa refeição
(cara, que fome!!!!): - Sanduíche de salaminho e refrigerante
vindos diretamente do R44 (é mole ?).

Um "Tucano" não
dá autógrafos mas permite a foto.
Aqui
também tive de preencher o famigerado Flight Plan. Equipamento
de sobrevivência polar, tem? - não; e pro deserto tem? - não. Não,
a hora não é local, tem que por a hora ZULU. Com a ajuda do
pessoal super simpático e da "cola"
de Campos, a coisa saiu mais tranqüila.
E
o Poubel que não aparece? Tinha notícias
dele até São
Mateus, mas de lá pra cá, ...nada...
A
navegação indicava 01
hora e 50 min de Caravelas até Porto Seguro, ou seja, deveria
decolar, no máximo as 15:30h para não correr o risco de
ter que pousar em Porto Seguro após o por do sol.
Fui
atrasando minha decolagem, na esperança de que o Poubel
chegasse. O pessoal dos trikes já tinha decolado, ficando
apenas o helicóptero me fazendo companhia. Às 15h 30min
(local), mais estressado que nunca, decolei rumo a Porto Seguro,
rezando para que nada de
grave tivesse acontecido ao Poubel.
Mal
tinha decolado, olhei para trás, numa última esperança de ver
o Poubel pousar e...Bingo!!! Lá estava ele, na reta final !!!!
Não resisti, pedi ao controle autorização de pouso e
retornei, com uma mistura de raiva e alívio em ver o U 2492 e
seu intrépido piloto pousados.
Poubel
tinha sofrido uma pane do motor entre São Mateus e Caravelas.
Os filtros de ar tinham se saturado de óleo 2 tempos e o motor
foi gradualmente perdendo potência, o que o obrigou a pousar
num praia deserta. O defeito foi rapidamente resolvido, com a
retirada dos filtros, após uma caminhada até uma habitação
próxima, para conseguir uma chave de fenda (a caixa de
ferramentas estava no meu avião). Outro erro a ser evitado: -
cada avião deveria ter
levado um jogo mínimo de ferramentas.

O
Poubel em pouso de emergência para trocar o filtro de ar.
Abastecemos
rapidamente o avião do Poubel e imediatamente decolamos rumo a
Porto Seguro, sem nenhuma folga na navegação.
O vôo até Porto Seguro foi tranqüilo. Não contamos
neste trecho com a companhia dos trikes, que já tinham decolado
bem antes.
Quanto
mais nos aproximávamos, mais
aumentava minha excitação. Estávamos
vencendo um grande desafio, mas um desafio repleto de
grandes alegrias.
Porto
Seguro surgia a frente, o cansaço já não existia, o motor 503
roncava com uma suavidade imensa. Me peguei acariciando o "Foquinho". Era com se fosse um companheiro antigo e querido, que
me dava uma alegria infinita. Tínhamos, juntos, usufruído
de um prazer por mim sonhado desde que me entendo por gente:
voar...voar...voar...voar. Faria esta viagem 10 vezes com a
mesma alegria, mesmo que não fosse preciso.
Não
sabíamos a localização da pista do Fly Clube; ela não consta
nas cartas aéreas. Tinha que confiar no GPS, e ele mais uma vez
foi "chique no úrtimo".
Meu
Magellan de 150 dólares, preso com velcro na calça do macacão
foi simplesmente fantástico. Indicava DST 10 km
....09km....08km....Coordenação Fly Clube, aqui U-2984 câmbio....
Prossiga 2984......2984 5
minutos fora, solicita aproximação direta....afirmativo
2984....

A
pista do Fly Clube, que foi parcialmente prejudicada pelas
chuvas.
A
pista do Fly Clube, meio alagada, mas maravilhosamente
acolhedora aparecia à frente. O
pouso, nem me lembro como foi, tamanha a alegria e excitação.
Quando me dei conta, estava cercado de dezenas de pessoas me
aplaudindo e ao Poubel (grande companheiro que me ensinou a voar
e que compartilhou comigo este sonho), que já estava ao meu
lado.

E
o "Foquinho", me trazendo de tão longe, permitiu que fizesse parte
da "galera".
Gente
filmando e fotografando. Se aproximaram dois sujeitos
simpáticos e foram
dizendo: Eu sou o Nallin, e eu sou o Rosendo.. Abracei
emocionado a dupla, que tanto nos incentivou, mesmo sem nos
conhecer pessoalmente. Abracei o pessoal de Ribeirão Preto,
companheiros maravilhosos na viagem, e .......fui pra
galera............
A
volta aconteceu no domingo,
mas,... bem, mas a
volta,... é outra história... |