De  Maricá/RJ  a  Guaxupé/MG  e  depois Sorocaba/SP

mais uma aventura de João Brancoli em seu "Foquinho" V-II

Junho de 2002

A viagem (aventura) do ano passado a Porto Seguro foi o maior sucesso. Dezenas de e-mails (na verdade seis) elogiando nossa viagem. Agora éramos conhecidos no meio aerodesportivo!!!. Tal fato nos animou a fazer o nosso segundo "tiro-longo" e certamente seria no 2° ENU que estava previsto para Governador Valadares em Junho de 2002.

A dupla Brancoli & "Foquinho"

No carnaval de 2002 decidimos, eu e o Poubel , irmos até Valadares de carro, marcando os vários pontos de apoio ( pistas, alternativas de pouso, abastecimento, etc.)  necessários ao sucesso de nossa segunda aventura. Fomos pelo interior do Espírito Santo até o Rio Doce, subimos o vale deste belo rio até o destino. Voltamos fazendo o reconhecimento do caminho que deveria ser a nossa volta, voando VOR (vôo observando a rodovia) sobre a Rio-Bahia. Estava tudo pronto. Infelizmente, já às vésperas, o encontro foi transferido para o Rio de Janeiro.

Duplamente frustrados, pelo cancelamento e pela transferência para o Rio de Janeiro (praticamente no nosso quintal) fizemos a pergunta: E agora ? Para onde vamos ? A decisão era de que iríamos para algum lugar, desde que estivesse a mais de 500 km de Maricá.

Foi aí que surgiu a 2ª Aerofest  em Guaxupé. Tínhamos tido boas notícias do primeiro encontro naquela cidade e a decisão foi unânime : iríamos este ano para Minas Gerais. Uma feliz coincidência surgiu: na semana seguinte ao evento em Guaxupé, estaria ocorrendo a Festa de Sorocaba e já fazia algum tempo que estávamos de olho em ir até lá com nossos aviõezinhos. A animação voltou e passamos a fazer os planos para o vôo. Dessa vez seria bem diferente.

O vôo para Guaxupé-Sorocaba seria certamente mais complicado que a ida a Porto Seguro.O tempo total estimado de vôo estava estimado em 9 horas. Não teríamos a apoio reconfortante do litoral (praias), sempre uma alternativa para casos de apuro, enfrentaríamos longos trechos de puro agulheiro (serras e terras altas) e voaríamos por grandes altitudes(pelo menos para os foquinhos), numa época que embora propícia para o vôo, trazia o inconveniente do intenso frio provocado não só pela altitude, mas também pelo vento. Desta vez nossas maquininhas estavam melhor preparadas. A experiência da ida a Porto Seguro foi importante. Os dois aviõezinhos, desta vez, estavam equipados com rádio, ferramentas adequadas e eu levava além do GPS, cópias de cartas aéreas dos trechos a serem percorridos presas numa prancheta de perna. Com uma régua anotei nas cartas as distâncias a serem percorridas a cada 30 minutos, anotei também num papel preso na parte superior da prancheta, as várias freqüências de rádio que poderiam ser utilizadas, o tempo estimado em rota (ETE) a numeração das pistas a serem utilizadas e as alternativas. Na perna esquerda ficava preso o GPS, na direita a prancheta com as cartas .Decolamos de Maricá na Quinta-feira dia 30 de maio  lá pelas oito horas da manhã . Estava um pouco preocupado, pois o tempo estimado de vôo até Atibaia-SP, onde pernoitaríamos, estava estimado em 6 horas. Isto nos daria pouco tempo para pousos intermediários (abastecimento, dreno dos pilotos, almoço e outras eventualidades), pois o por do sol ocorreria pouco depois das 17 horas locais.


A 500 pés, a  travessia da “ boca da barra” (entrada da baía de Guanabara)

Nossa primeira escala seria em Nova Iguaçu com tempo  de vôo estimado em 1 hora e 30 minutos. Logo na saída de Maricá ingressamos nos corredores visuais que nos levariam para fora de uma área de muito movimento aéreo na região .Cruzamos a boca da barra (saída da Baía da Guanabara) , que embora tendo um visual deslumbrante,é algo meio assustador.

Trata-se de cruzar sobre o mar cerca de 6 intermináveis minutos de vôo, sem nenhum apoio, a 500 pés de altitude e rezar para que nada aconteça, pois senão, a amerissagem é certa.

Deixando o Pão de Açúcar pelo través direito, sobrevoamos Copacabana, Ipanema, Leblon, o Cristo Redentor passando ao lado e Barra da Tijuca; visual deslumbrante. No final da Barra da Tijuca, fizemos uma curva de 90 graus para a direita, ingressando no corredor Charlie.

     
Ingressando no corredor Charlie no final da Barra da Tijuca

Pão de Açúcar ao fundo, depois Copacabana e em  seguida Ipanema e Leblon. Aí encontramos as primeiras montanhas pelo caminho. Nossa primeira escala, para dreno dos pilotos, seria em Nova Iguaçu a  cerca de hora e meia de vôo. Até aqui tudo tranqüilo; a fonia funcionava bem, pouca turbulência e o tempo, embora um pouco nublado, estava bom.

Nossa primeira escala em Nova Iguaçu

A chegada em Nova Iguaçu foi tranqüila. Fomos escoltados na aproximação por um ML comandado pelo Comandante Daminelli que estava nos esperando com um delicioso e reconfortante chá. Não demoramos muito. Tínhamos pouco tempo de sobra e decolamos, mais uma vez escoltados até a saída do portão 5 ,corredor aéreo que nos levaria de volta ao rumo de nossa próxima parada,a cidade de  Resende com tempo estimado em vôo calculado em 1 hora e 40 minutos.

Daí para a frente, começamos a ganhar altitude. Escolhemos o mirante Belvedere para atravessarmos a Serra das Araras. Isto nos desviaria um pouco da rota, mas não nos obrigaria a voar muito alto. Cruzamos o Belvedere a 3000 pés com folga, e decidimos aproar Volta Redonda, caso decidíssemos dar uma parada por lá. O rádio funcionava muito bem. Regularmente trocávamos mensagens, o que me tranqüilizava muito. O Poubel decidiu, até agora não sei porque, utilizar o sistema de navegação S.O.Q.V.N.F.(Seguindo o que vai na frente). Guardou o GPS no bolso e a agulha magnética do avião dele estava inoperante (tinha vazado o líquido) e colocou comodamente em cima de mim a responsabilidade da navegação. Estávamos assim entrando "na normalidade", ou seja, meu ala me estressando.

 

Névoa  sobre Volta Redonda

Sobre Volta Redonda, encontramos uma névoa úmida, que minutos mais tarde descobri (pelo cheiro) serem resíduos da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional). Sabe o que é você estar voando sobre uma região de montanhas, matas e de repente atravessar uma névoa com cheiro de ácido sulfúrico !? Que frustração!

A Via Dutra mostrando o rumo a seguir

A Via Dutra, servia como uma boa referência. Nossos pequenos transceptores Icom A4 captavam dezenas de transmissões do tráfego aéreo que era intenso na região de Parati. Mantínhamos escuta na freqüência livre (123,45 MHz) e observei que naquela manhã de quinta-feira, dezenas de aeronaves se encontravam no litoral  a caminho de Parati e Angra dos Reis. Mantivemos contato com um helicóptero Robinson R44 que nos queria informações sobre abastecimento.

Já conhecíamos o aeródromo de Volta Redonda, que retrata fielmente o estado atual da aviação pelo interior do Brasil: decadência ! A pista em Volta Redonda está interditada, os aviões não voam. Nos poucos lugares neste país onde a aviação leve prospera, é à custa do esforço incansável de algumas pessoas que realmente são apaixonadas pelo voar.

Seguimos a Dutra até Resende, onde pousamos para abastecimento dentro do tempo previsto, por volta das 11 horas locais. Nos atendeu o guarda-campo dizendo que o abastecimento dependia da autorização de um coronel, diretor do aeroclube que não se encontrava no local. Após reiterarmos nossa necessidade de abastecimento, reforçada agora com a chegada do R44, o funcionário telefonou para a autoridade, que consentiu com o abastecimento, nos cobrando a módica quantia de R$ 4,50 o litro do precioso líquido. Tínhamos pago dois dias antes no Rio de Janeiro, o preço de R$ 3,10 . A situação, porém não nos dava muita margem de negociação. O Poubel com seu costumeiro estilo começou a desfiar cobras e lagartos para com a turma do aeródromo. Assalto e falta de amor à aviação, foram os adjetivos mais leves usados pelo meu indignado ala.

 

A segunda escala, agora para abastecimento em Resende-RJ

Decolando de Resende, aproamos Pindamonhangaba (ETE = 1h20min), onde estava programada nossa terceira parada, agora para o almoço. Na decolagem, fomos avisados via rádio pela coordenação Resende de que o cinto de segurança do banco traseiro do Poubel estava solto. Resolvi fazer uma curva de 360 graus para me aproximar e ver o que estava acontecendo. O Poubel já tinha resolvido o problema e nesta minha volta fiquei para trás. Lembrem-se de que a navegação do meu ala era me seguir e parece que naquela ocasião ele não se deu conta deste fato. Se limitou ir seguindo a Via Dutra, o que o tirava bastante da rota pré-estabelecida. Agora me via numa situação no mínimo engraçada: pelo rádio, dizia: Poubel, acerta seu rumo!, mais para a esquerda, mais para a direita, me espera cacete!! Deixa eu ir na frente!!! O teimoso parecia me ignorar!! Acho que estava me sacaneando!! Após uns quinze minutos de estresse e impropérios pelo rádio, consegui ultrapassá-lo e a quase normalidade voltou a se estabelecer. Pousamos em Pindamonhangaba por volta das 14 horas locais, onde fomos recebidos por uns traikeiros (começava ali o reinado desta turma da asa delta motorizada , que mais tarde me daria o maior susto !!).

Parada para almoço em Pindamonhangaba

Em Pindamonhangaba existe um restaurante muito bom, tipo self-service colado ao aeródromo. No dia de nossa chegada estava bastante movimentado. Parece ser um ponto de encontro de pessoas que gostam de admirar o vai e vem das aeronaves enquanto almoçam. Decolamos de Pindamonhangaba para nosso último trecho do dia. O próximo pouso agora seria Atibaia (ETE= 1h20min), onde pernoitaríamos.

O trecho de Pinda até Atibaia foi relativamente tranqüilo. À nossa direita, o maciço da Mantiqueira surgia imponente, uma visão magnífica. O Rio Paraíba  se descortinava sobre nossos pés, e ao cruzarmos o través da cidade de Aparecida do Norte, aproveitamos para tirar fotos da famosa catedral. Eu, que por muitos anos passei pela Via Dutra de ônibus e de carro, tinha agora uma visão completamente diferente da região. O vale do Paraíba neste trecho é extensivamente cultivado, e uma grande várzea se estende  por muitos  quilômetros.

Sobrevoando Aparecida do Norte

A partir daí, começamos a nos deslocar mais para a direita. O maciço da Mantiqueira começava a  reduzir sua altura. Passamos pelo través de Taubaté, onde  brinquei com o Poubel ao passarmos por um complexo penitenciário. Oh! Poubel, em caso de emergência, não pouse por ali, pois senão você corre o risco de não sair mais de lá !!..

Mais adiante, pelo través da esquerda, agora bem mais distante, deixamos São José dos Campos e iniciamos a passagem do que chamei  de "rabo da Serra da Mantiqueira", ou seja os últimos resquícios da majestosa formação rochosa, que atinge seu clímax no Pico das Agulhas Negras.

Começamos a sobrevoar pequenos morrotes, com uma extensa represa que serpenteava pelos vales. Observava vários jetskis deixando seus rastros pela superfície da água. Nesta passagem, Poubel me reportou pelo rádio que tinha sofrido forte turbulência. Embora nada mais forte tivesse acontecido comigo, redobrei minha atenção e fomos em frente.

Após alguns minutos, avistamos à frente a Rodovia D. Pedro II, que liga Jacareí  a Campinas. Tínhamos agora mais um recurso: a navegação VOR (voando observando a rodovia), pois sabia que Atibaia se encontrava às margens desta estrada. A turbulência  continuava mais ou menos forte e tivemos que iniciar uma subida, em função da altura dos morros que surgiam à nossa frente. O rádio enchia-se de fonia por todos os lados. Tráfego em Atibaia, Vale Eldorado (lugar magnífico que falarei mais tarde), Bragança Paulista, etc... Me sentia bem animado; sempre que me aproximo de um destino, esqueço rapidamente todas as dificuldades encontradas pelo caminho.

Com o amigo  Cmte. Nallin e o Flecha Prateada em Atibaia

A perspectiva de nos encontrarmos com o Nallin, minha referência em matéria de piloto desportivo, me animava. A chegada em Atibaia não poderia ter sido melhor. O aeródromo fervilhava de atividade. Um monte de trikes decolava e pousava a todo instante. O famoso Flecha Prateada (aeronave do Nallin) se encontrava majestosamente estacionado no pátio. Um monte de gente veio nos receber, capitaneados pelo companheiro que nos apresentou a todo mundo.

Daí a 15 minutos já estava voando de novo para um panorâmico sobre Atibaia, agora no Flecha Prateada, um lindo Pelican com motor Rotax 912 de 100hp, equipado com o que há de melhor (até CD de mala a máquina tem). Após 6 horas de vôo no Foquinho, aqueles 15 minutos no Pelican serviram como um doce  relaxamento. Soubemos que no dia anterior, 4 trikes já tinham partido para Guaxupé. Abastecemos as aeronaves e deixamos tudo pronto para a última etapa: Atibaia – Guaxupé (ETE= 2horas e 30min), que faríamos na manhã do dia seguinte.

Com a galera dos trikes em Atibaia

Nallin já tinha reservado hotel e, após o por do sol, fomos tomar um banho e descansamos um pouco. Mais tarde, o amigo nos levou para comer um suculento macarrão, onde aproveitamos para botar em dia a prosa. Nallin nos sugeriu que na ida a Guaxupé, fizéssemos uma escala em Mogi-Mirim. Esta escala nos permitiria um descanso intermediário e nos afastaria de um trecho montanhoso com a presença de forte turbulência. Isto acrescentaria cerca de 8 km à nossa rota. Nada mal. Nallin decolaria no dia seguinte.

No dia seguinte (sexta-feira dia 31/05), chegamos ao aeródromo bem cedo e encontramos o Roberto, dono de um lindo avião Pober-Pixie que perguntou se poderia nos acompanhar na viagem. É lógico que sim, disse, apenas perguntei com ironia se ele conseguiria nos acompanhar, visto que voaríamos a espantosas 55 milhas por hora. Quebrado o gelo, decolamos rumo a Mogi-Mirim (ETE= 1h 10min), nossa última escala até Guaxupé.

Com alguns minutos de vôo, cruzamos a vertical de Vale Eldorado. Para quem não conhece, este local é conhecido como o paraíso da aviação desportiva. Assim como existem condomínios náuticos, onde as casas possuem embarcadouros na frente, ou atrás, aqui existe um condomínio aeronáutico, cada casa com seu hangar, ao lado de uma linda pista de pouso asfaltada. Comentei via rádio com o Poubel a beleza do local de como seria bom morar por ali. Alguém escutou  e agradeceu meu elogio; era uma feliz morador daquele paraíso que já se encontrava voando.

 

Sobrevoando as terras altas entre Atibaia e Guaxupé
(lá no fundo o Pober-Pixie do Roberto)

Por essa altura, já voávamos a mais de 5000 pés de altitude. Subir mais nos congelaria, descer, aumentava a turbulência. Neste sobe e desce, hora sentíamos frio, hora levávamos pancada e assim fomos indo até o pouso em Mogi-Mirim, onde o Roberto transferiu gasolina de um galão para os tanques de seu avião. Tínhamos ainda  cerca de 1 hora e meia  de vôo até Guaxupé. Decolamos, e a combinação pancada-frio foi nos acompanhando. O que me animava agora era a fonia que entrava pelo rádio. Um frenético movimento de tráfego aéreo já se apresentava em Guaxupé. Dezenas de aeronaves decolando e pousando, fazendo a coordenação pela freqüência livre, me mostravam que nosso destino estava cada vez mais perto. Até aqui nossas maquininhas tinham sido simplesmente fantásticas. Nenhum, absolutamente nenhum problema, tinha aparecido. Parece que nossos aviõezinhos sabiam que problemas nos trechos voados até agora seriam bem sérios. Finalmente Guaxupé se mostrava à nossa frente.

Gozado, senti mais emoção quando cheguei em Porto Seguro no ano passado. Desta vez, parece que  a coisa foi mais mental e menos emocional. Pousamos e fomos muito bem recebidos pelo pessoal do Aeroclube. Me dá muita alegria ver aeroclubes saudáveis como este. Gente voando, conversando, rindo e mexendo nos aviões me renova a esperança de que por mais que tentem alguns burocratas, jamais conseguirão destruir  o sonho daqueles que amam voar.

Várias pessoas que já nos conheciam pela nossa aventura do ano passado vieram nos cumprimentar e perguntar pelo vôo que acabávamos de completar.

Alguns se espantavam pela nossa decisão de vir voando de tão longe. Digo apenas que uma viagem de 2000 km se compõe de várias pequenas viagens de 100 km. Este raciocínio torna as coisas mais fáceis.

Tínhamos a intenção de participar da festa em Sorocaba que aconteceria na semana seguinte, mas um problema solicitava a presença do Poubel no Rio de Janeiro. Se não fosse mais possível levarmos os dois aviões, pelo menos um estaria lá! A viagem estava programada para o dia seguinte (domingo) e começamos a fazer planos para o vôo, agora em solitário.

Perguntei ao Poubel qual seria seu plano para o vôo de retorno e ele me disse que quem deveria fazer o plano era eu, pois ele tinha decidido que, pelo fato de estar muito cansado iria deixar o seu Foquinho hangarado em Guaxupé.

Confesso que senti um misto de desânimo com entusiasmo. Também estava cansado e com uma gripe muito forte, conseqüência do frio contínuo e intenso sofrido nos últimos dias. Contente porque, se tem algo que alimenta minha alma, é voar! Decidi então fazer o plano de vôo para o dia seguinte. Aproaria Mogi-Mirim apenas como referência para a rota de volta. Não tinha a intenção de pousar lá. Iria direto até Americana (ETE= 2h 10min), onde tencionava conhecer a Escola de Aviação de Americana, um centro de excelência em escola de ultraleves. Depois aproaria Itú, onde esperava chegar no meio da tarde.

Assim decidido, resolvemos aproveitar o resto do sábado, saboreando as acrobacias do Tike Bazaia e seu Decathlon e de um lindo biplano Cristen Eagle.

O domingo amanheceu com um céu maravilhoso, mas um forte vento de cauda deixava minha decolagem rumo a Itú  comprometida. O Roberto decolou com seu Pober-Pixie por volta das 10 da manhã e voltou desaconselhando qualquer tentativa de vôo até meu pretendido destino.

O Poubel tinha conseguido uma carona num Cherokee que ia até Sorocaba e se preparava para a partida. Por volta do meio dia, o vento acalmou um pouco. Decidi me aconselhar com o Tike Bazaia (conhecedor da região e campeão de acrobacias) e ele me disse que na sua opinião, a viajem seria tranqüila e até mais rápida, visto que o vento era de cauda.

Aconselho aos menos experientes a tomarem cuidado na interpretação do que é um vôo tranqüilo para campeões de acrobacia, pois o que é tranqüilo para eles pode ser apavorante para nós, pobres mortais.

Decolei por volta do meio dia, após me despedir das pessoas maravilhosas de Guaxupé e do  Foquinho, que ficou encostado no fundo do hangar.

Assim que aproei Mogi-Mirim, anotei no GPS uma VS (velocidade relativa ao solo) de 135 km/h. A ASI (velocidade indicada do ar) estava em  90 km/h. Isto me dava uma velocidade do vento de cerca de 45 km/h, cerca de 20 nós. Isto pro o Foquinho é muito !!!!

Já que a coisa estava a favor, decidi seguir viagem. A pancadaria estava maior, mas bem maior que na vinda!

Não era exatamente um vento de cauda. O vento me pegava pelo través da cauda. Imagine o mostrador de um relógio analógico. O vento soprava forte vindo pelas 5 horas (deu pra entender ?) por trás meio pela direita.

Pulando mais que um cabrito, tentava manter a proa correta.

Com o passar dos minutos, observava que as montanhas continuavam a subir, me obrigando a subir cada vez mais. Estava já voando a 6000 pés quando observei uma elevação surgindo na minha frente. Estranhei, visto que na vinda, em nenhum momento precisei subir tanto. Ao me aproximar  de um paredão que se aproximava pela proa, subitamente fui tragado para dentro de uma espécie de banheira enorme.

Uma forte corrente descendente simplesmente me agarrou pelo colarinho e me jogou pra  dentro de um caldeirão (era mais uma banheira) com cerca de 10 km de comprimento por 2 km de largura. Me deparei então com uma situação, no mínimo desconfortável, para não dizer assustadora. Em menos de 1 minuto, tinha desabado para  4500 pés, o ultraleve pulava mais que cavalo chucro e, embora continuasse no mesmo rumo, ziguezagueava mais que  Fórmula 1 desgovernado. A adrenalina subiu e comecei a raciocinar sobre o que fazer. Após a quinta ou sexta corcoveada, na descida, o cinto de segurança (abdominal) que se encontrava um pouco folgado, machucava minha virilha; na subida, levava uma pancada absurda naquele ossinho que um dia já foi rabo e que fica no centro da bunda (cóccix).

Minha primeira atitude foi dar um puxão no cinto para tentar preservar meus ossos, o que consegui rapidamente. Em seguida, avaliei a situação e observei que não conseguia, por mais que tentasse, controlar  as deflexões para a direita e para a esquerda, muito menos a direção do avião. Como o mesmo voava mais ou menos na direção do fim da banheira e a deflexão lateral se mantinha dentro de um espaço mais ou menos seguro, me concentrei em tentar controlar outras duas variáveis críticas: a velocidade indicada e a altura.

Consegui manter a velocidade indicada do ar em parâmetros razoáveis: oscilava entre 35 e 70 milhas por hora, isso num intervalo de poucos segundos. A altura me preocupava mais, pois naquele momento, minha altura estava menor que 500 pés (a 5000 pés de altitude), voando sobre uma ravina, o que me tranqüilizava um pouco, pois "ser pousado" por ali, seria mais fácil. Após uns dez minutos pulando, sacudindo e  tentando manter um mínimo de calma necessária, surgiu um novo probleminha. Estava me aproximando do fim da maldita banheira e, como estava baixo (5000 pés de altitude e 600 pés de altura), deveria subir bastante para tentar passar pela muralha que se aproximava pela frente. Nesta altitude, o Foquinho não tem muito fôlego para grandes taxas de subida. Minha experiência com este aviãozinho me dizia que não podia contar com uma velocidade de subida maior que 150-200 pés por minuto nesta altitude. Isto tornava a transposição da barreira simplesmente impossível. Decidi então tentar dar meia volta e circular até ganhar altura suficiente. Ia ser um bocado difícil fazer esta manobra nas atuais condições, mas como não tinha outro jeito, comecei a me preparar para o suplício.

Eu, que evito ao máximo exigir do motorzinho 503 mais que 6000 rpm mesmo em decolagens, me vi na necessidade de exigir potência máxima. "Falei" pra ele : 503, você que nunca me deixou na mão, por favor, não me abandone agora!!! Levei a manete de potência até o esbarro, o bichinho reagiu de imediato, saltando para 6800 rpm assobiando que era uma beleza. Seus fabulosos 55 hp de pura potência assustaram a bruxa!!  Imediatamente, acreditem se quiser, a mesma mão que me jogou pra dentro desta maluquice, resolveu me cuspir pra fora. Fui atingido por uma violenta corrente ascendente e tive a sensação de estar caindo pra cima!!!! Avaliei estar subindo a mais de 1000 pés por minuto e comecei a rir, talvez de nervoso.

Se estava nervoso e triste na entrada, agora me via nervoso e alegre, por estar saindo daquele buraco. Acho que  as forças da natureza se assustaram com o ronco da máquina e decidiram se livrar de nós. Ao dar por mim, me vi a 7000 pés de altitude num mar de calmaria, com o caldeirão para trás, e uma cidade passando bem longe pelo meu través direito. Antes que fizesse qualquer avaliação do meu estado atual, senti que minha perna esquerda estava com algo errado. Não consegui senti-la. Notei então que o cinto de segurança estava demasiadamente apertado, prendendo a circulação do sangue  deixando-a  dormente. Afrouxei o cinto e uma dor forte, seguida de comichão invadiu minha pobre perna. Voltei a respirar, visto que acredito ter passado os últimos 10 minutos sem dar um suspiro sequer, e comecei a avaliar o cenário. Minha primeira constatação já me deixou alegre: tinha batido meu recorde de altitude no Foquinho: 7100 pés! O máximo que tinha subido até agora era 6000 pés em Maricá. O bravo aviãozinho não tinha sofrido absolutamente nada, o 503 tinha provado, mais uma vez, seu valor (é velhinho, mas nunca me deixou na mão). A bagagem, bem como o tanque extra, estavam perfeitamente firmes. Apenas uma pequena quantidade de gasolina tinha vazado pelo suspiro do tanque extra. Olhei para a direita e vi que começava a sobrevoar  terras mais baixas. Decidi descer, pois agora minha altura estava também elevada. Consultei o GPS e vi que a cidade observada pouco tempo atrás era São João da Boa Vista. Aí então, como dizem os cariocas, caiu a ficha: O vento tinha me deslocado muito para Leste, me desviando da rota prevista quase trinta quilômetros. Isto me levou pra onde o Nallin tinha me avisado para evitar a qualquer custo: as montanhas altas que circundam a cidade de Poços de Caldas. Definitivamente, nunca tinha apanhado tanto quanto agora.

Corrigi a rota, visto que meu próximo destino seria Americana e que agora estava bem mais a Oeste.

Desci para 1000 pés para evitar problemas nesta região de tráfego aéreo intenso e fui me acalmando aos poucos. O vento continuava de cauda, mas muito, muito mais tranqüilo. Pousei em Americana e fui recebido pelo Comandante Camargo, que gentilmente me mostrou as belíssimas instalações de sua Escola. Notei então que estava completamente surdo e que minha virilha esquerda estava um pouco inchada. Nada mal !!!

Fiquei pouco tempo em Americana, pois precisava deixar o bravo Foquinho hangarado em Itu (ETE=50 min) (gentileza do Tike Bazaia) e pegar um ônibus para São José do Rio Preto, onde passaria alguns dias no sitio de meus pais. A chegada em Itú foi muito tranqüila, fui recebido pelo Pedro, filho do Tike, que me deu uma carona até a rodoviária da cidade.

Pra encurtar a história: O Poubel  passou a semana no Rio e na sexta feira seguinte foi até Itú, pegou o Foquinho e chegou voando até Sorocaba (ETE=20min), dando antes uma aterrissagem não prevista em Jundiaí (?!?!?). Nosso sonho estava realizado !!!!!        

    

 

Olha só o “ bruto”  em  plena Aeroesport Sorocaba 2002 !!!

 

Alguns agradecimentos são necessários:

1 – Ao Comandante Daminelli, que nos recebeu com todas as honras da casa (com um delicioso chá) na nossa primeira escala em Nova Iguaçu;.

2 – Ao grande companheiro e exemplo de piloto desportivo Comandante Nallin, pelas dicas, pelo carinho em Atibaia e pela solidariedade em Guaxupé;

3- Aos competentíssimos diretores do Aeroclube de Guaxupé pelo apoio e carinho dados;

4 – Ao Tike Bazaia por ter permitido a hangaragem de nosso Foquinho sobrevivente, em Itú por uma semana e ao Pedro, seu filho, pela acolhida.

5- E finalmente, um agradecimento especial a três pessoas :

    - Ao inventor desta maravilhosa máquina voadora chamada Fox V-II;

    - Ao inventor deste símbolo de confiabilidade chamado motor Rotax 503 a platinado; e

    - A santa pessoa que inventou este tal de GPS.

 

Resumo

DATA:

TRECHO:

DISTÂNCIA:

TEMPO DE VÔO:

AERONAVES:

PILOTOS:

CONTATO:

30 de maio a 3 de junho de 2002

Maricá-RJ / Guaxupé-MG / Sorocaba-SP

1080 km

12:20 h em 5 dias

2 Fox V-II - Vector

João Brancoli / João Batista Poubel

jbrancoli@hotmail.com