Araxá - o retorno

A Viagem de Gilberto Bitar com a sua Naza e um "Bravo" nas rotas para o 7º ENU

24/julho/2007

 
Pátio de estacionamento do encontro com mais de 120 aeronaves.

Depois de ter participado do 3° ENU em Araxá, achei que não teria ânimo para repetir a aventura. Mas quatro anos se passaram e vi que aos 70 ainda estava querendo mais. Consultei minha Naza e resolvemos repetir a dose. Nosso "Bravo", bem mantido pelo Danilo estava em plena forma aos sete anos. Desta feita, dois outros companheiros do AERO&NAUTA resolveram enfrentar o desafio. O Octávio Lobo com seu sobrinho Carlos em seu "Super Coyote" e o Fernando Guimarães com seu irmão Márcio em seu "Bravo 700".

Tudo planejado, principalmente com os companheiros de Brasília, e no dia 05/06/07 decolamos rumo à Imperatriz. Na primeira hora e meia de um total de 03:13h o tempo estava relativamente bom. A umidade e o calor criaram um extenso lençol de nuvens colado na mata e campos. Nós três não voávamos em ala, mas sempre em contato pelo rádio. Avaliamos que com o crescente calor solar esta camada subiria, nos dando espaço para um vôo visual. Isto não aconteceu. A camada ficou mais densa e pior, uma outra surgiu acima e as duas começaram a se juntar... E nós no meio. Numa rápida olhada vi que a condição já era a mesma nos 360°.

Decidimos manter rumo e altitude com proa de Imperatriz, o que nos levou a mais uma hora de vôo em condições preocupantes. Eu não tenho horizonte os outros dois tem. Bom aí vem todos aqueles pensamentos: Como entrei nesta se sabia que em tais condições deveria voltar? E a Naza aqui do meu lado estava confiante que eu conseguiria manter o nosso BRAVO voando. Então chegou a hora de agir. Quarenta minutos fora resolvemos furar a camada, pois sabíamos que a área sobrevoada deveria ser plana.


As nuvens brancas estão transformando mosso horizonte: - as coisas estão ficando pretas.

Cada um por si, lá fomos nós. Alguns "flashes" entre camadas me ajudaram a manter o horizonte. Pelo rádio Fernando alertou quanto a velocidade. A minha variava entre 60 e 100 N.M e o rumo oscilava de 40° a 50° para cada lado. Apesar disto "Alguém" conseguiu manter o BRAVO voando. A Naza estava calma como sempre, mas bem consciente da situação. Foram 40 minutos torturantes chamando a rádio Imperatriz sem resposta e sempre em contato rádio com o Octávio e o Fernando que enfrentavam a mesma situação. Com alívio avistei na vertical, pois à proa não via além de 100m, uma plantação de pimenta do reino.

Já com o rumo e altitude sob controle fui administrando o vôo com o olho no solo pela janela lateral. Naza que estava olhando para frente me advertiu sobre algo mais alto adiante. Eram eucaliptos, subi e continuei com esta nova referência. Campos arados e recém plantados foram surgindo e a Naza perguntava se não era o caso de pousar ali e eu explicava que seria pilonada na certa. Finalmente conseguimos contato rádio com Imperatriz que informou tempo bom. Aproximamos, chegamos e pousamos. Deixamos a quem nos ler as reflexões sobre o que fizemos, nós já fizemos as nossas. Estamos seguros que toda a "Turma" lá de cima estava de plantão, e que nosso BRAVO mais uma vez mostrou a sua robustez.

Após o reabastecimento e comentários já com tempo bom, decolamos para o próximo destino, Araguaína. Confesso que nestas 01:25h de vôo senti um pouco de tédio e alívio. Tédio em relação ao sufoco da 1° etapa e aliviado pelo tempo bom. Araguaína velha conhecida não mudou nada após quatro anos do 3° ENU. A paisagem na rota era a mesma de campos, poucos riachos e estradas. O sereno "ronronar" do motor, os 360° de céu limpo. A sensação de flutuar é só para quem voa.

Palmas é uma cidade nova, bem traçada e quente, mesmo sendo ladeada pelo rio Tocantins. Preferimos pousar em uma pista particular - Sítio Flyer ao norte da cidade, onde tivemos abastecimento e pernoite sem os atropelos de um aeródromo nacional. Em poucos minutos de táxi chegamos ao hotel onde encomendamos uma pizza ali mesmo no "ap", pois não tivemos ânimo para ir a um "restô". Nosso primeiro dia foi cansativo e tenso, é sempre assim no primeiro dia. Deitamos e mesmo tentando evitar a lembrança do sufoco só nos deixou quando o sono foi mais forte. Acordamos tarde e descansados.Às 09:40h decolamos.

Serenidade total. 01:30h de vôo, pouso em Gurupi. Revimos o casal de amigos do abastecimento que oferecem café com bolacha e até uma cama caso algum piloto quizesse tirar uma pestana ou pernoitar ali mesmo. Depois de um papo relaxante decolamos para Porangatu, onde há muito tempo...Um jovem apaixonado índio teria dito "por Angatu minha amada eu dou minha vida..." (é vero). Aí eu lembrei que ainda não havia dado meu grito de guerra matinal "amor de mi vida minha Naza querida". Logo vem um beliscão e a velha frase "para com isso mininu !!!".


Pátio de estacionamento em Gurupí/GO

Porangatu tem uma bela pista asfaltada, abastecimento, balizamento noturno (não sei pra que, mas tem). A estação de passageiros é bem arrumadinha e o pessoal muito atencioso. Demos uma cochilada nos confortáveis bancos estofados (e o tempo passando...). Decolamos as 14:25h mas voltamos em seguida porque a temperatura da água do COYOTE do Octávio subiu muito. Massageamos a válvula termostática (após consultar o Danilo em Belém) e tornamos a decolar as 15:20h para após 02:10h chegarmos em Brasília.

Semanas antes o amigo Edmar do APUB já havia me municiado com todas as informações, para lá chegarmos sem ter que perturbar o já complicado CINDACTA-1. Assim sendo, na vertical da "Barrajinha" após contornar a Granja do Torto, chamamos o controle APUB no que fomos atendidos pelo "controlador" Faraco que nos deu as primeiras instruções e nos passou para a "torre" Edmar que mandou todo mundo se afastar e assim pousamos lá. Rimou...Né Nallin? Tu tás virando ator e eu, poeta...hiihhihi.


Brasília

No APUB o pessoal realmente leva a sério as normas de vôo. É um clube muito organizado feito para pilotos e suas máquinas. Tudo o que falarmos sobre a atenção por parte de todos seria pouco. Após um briefing sobre os procedimentos para o vôo do dia seguinte rumo a Araxá, fomos para o pernoite. Eu e Naza na casa de nossos sobrinhos Clóvis e Rosana, Otávio e Fernando em um hotel próximo.


 Panorâmico dos arredores de Araxá/MG

Quinta-feira dia da chegada em Araxá, decolamos as 07:30h. De acordo com o briefing da véspera, tínhamos que decolar no sentido Asa Norte, logo que possível 90° à esquerda, contornar a Asa e seguir pela península até a Barragem do Lago Paranoá, deixando o Palácio do Planalto bem à direita. Aproar as papudas (penitenciárias) e por motivos óbvios passar entre as duas, nunca sobre. Daí Luziania para abastecimento, até Araxá foram 03:00h. Meus magros glúteos já vinham reclamando do meu peso que foram agravados nesta última etapa. Acho que para a próxima viagem longa vou ter que implantar silicone ou transferir gordura da barriga pra lá.


Gilberto e Naza na chegada em Araxá, ladeados pelo Ceotto e Albrecht

A chegada foi muita bem programada pela comissão que estabeleceu três pontos de espera. Ponto 01 pra quem vinha do sul, 02 do este, e 03 norte e oeste. Com 120 ULM esperados e chegando, fiquei com pena do controlador, mas tudo deu certo. Quando acusei no 03 fui informado que estava livre para pouso. Fiquei feliz. Imaginem nossa alegria de reencontrar os amigos quatro anos depois, nos palmeando e abraçando. Chorei claro!

Os três dias de Araxá desta vez com a presença do nosso amigo Murilo (Webmaster da ABUL), já não tinham as surpresas do ENU anterior, mas tivemos a alegria de conhecer novos companheiros e novos modelos de aeronaves. O Montandon, a "águia americana", foi impecável na organização do encontro junto a uma equipe dedicada. A dupla Nallin-Rosendo de avião novo (RV-9). O Nallin me confidenciou que tem tanta raiva da Vivi que não larga dela para mantê-la sofrendo. Falando em avião novo, meu amigo Ivan tava todo feliz com seu RV-9 que tava chegando e a Vivi dele satisfeita em ter um bagageiro maior para as compras. O Roberto Marcondes e sua Lisete cheios de alegria e amizade. Uma lição de força de vontade nos deu o mestre Ceotto que perdeu o excesso de peso, o que o seu BRAVO certamente agradeceu. O Rosendo para compensar sua feiúra levou sua linda namorada, meu Major elegante com sua Patrícia, coordenava tudo com suas simpáticas meninas da ABUL. O Luiz Cláudio (Flyer) com sua alegre esposa rindo para as paredes com o sucesso dos seus RV-9. Matei a curiosidade e conheci o falado Cmte. Paraíba. É mais novo do que eu pensava, muito espontâneo e espirituoso.

Na abertura do Encontro, tivemos a palavra sempre sorridente do Prefeito Antônio Oliveira, que pela segunda vez nos recebia na hospitaleira Araxá. Com a tradicional calma mineira, ele se colocou a nossa disposição para o que precisássemos durante o encontro, quando ficamos impressionados com as cuidadosas previsões das necessidades das aeronaves e seus pilotos. O pátio sendo constantemente molhado para evitar poeira, o combustível sendo fornecido em "caminhonete pipa" e toda uma programação cuidadosamente elaborada e realizada pelo Montandon, tudo com o apoio direto da prefeitura de Araxá.

 


O "time" de Belém: Fernando Guimarães, Gilberto Bitar, Naza, Márcio, Carlos e Otávio Lobo.

O Grupo de Brasília que levou o troféu de mais numeroso e diria profissional na prática do nosso hobby, tinha amigos como o Edmar e sua simpática Ângela, Faraco e Natália e o Ronaldo, lembram do 3° ENU? Quando perguntado se tinha dormido bem, dizia que não sabia, pois estava dormindo. Pois é, estava lá feliz com seu novo "Paradise".


Jantar, com o Vagner, Fernando, Márcio, Carlos, Octávio e Alberto Nasser)

O Fábio Homem (Aerobravo) com sua Márcia só chegaram no sábado esbanjando alegria. Tava também o Cmte. J.C. muito feliz por ter voltado às plataformas (Petrobrás), assim terá mais tempo para curtir sua nova aeronave. Nosso amigo Jason tem um fotoblog "esse cara é velho" que evoluiu para Escaravelho, e eu tô lá. Seu "Seamax" foi destaque na festa junto ao dono que é um ícone do nosso meio.


Abertura do 7º ENU, no hangar do Aeroclube de Araxá/MG

O melhor de tudo foi a convivência, os olhares, os papos, os abraços, os elogios, as estórias, as massagens no ego, a auto crítica na palestra sobre segurança, as refeições em locais privilegiados...a comilança. Novamente foi tudo muito bom.


Pátio de estacionamento do encontro com mais de 120 aeronaves.

Hora de voltar. Fizemos o inverso da ida alternando os pernoites, agora em Porangatu e Imperatriz. Viemos embalados pelas lembranças do evento, foram 15:00h de vôo ocupado com o prazer de voar e de acordo com nosso Murilo - "ter estado com amigos queridos foi mais um presente do voar. Participar de um encontro desta magnitude nos rejuvenesce, nos faz crianças. A criança perfeita a alegria infantil com a experiência do adulto".


Márcio, Gilberto, Naza, Octávio e, de cócoras, Alberto Nasser

O Jantar em Imperatriz onde o pôr do sol é as 18:02h, eu pousei as 18:00h e ainda enveredei por um táxi-way que tinha um X amarelo: dei de cara com os bombeiros. Cansaço, manicacada? As duas. Mas sim, o jantar proporcionado pelo nosso amigo Alberto Nasser e sua Shirlene, foi nada menos do que dois tucunarés assados e duas caldeiradas de filhote. O Alberto que é um exagero de amigo esteve conosco no ENU em seu Fascination junto com o seu e nosso amigo Vagner. Sem comentários sobre o estado lastimável que saímos do jantar.

Dormimos e decolamos as 07:00h do dia seguinte 12/06/07 pra casa. Ao entrar na TMA de Belém, pela primeira vez fui solicitado a ligar o transponder. Fiz tudo direitinho e pousei no AERO&NAUTA. Octávio e Fernando vieram em seguida. Nos esperando estavam nossos filhos Gilberto e Gilna assim como o Danilo, que viu com satisfação a chegada sem problemas das "garças" que ele mantém.

Já passados alguns dias, minha Naza e eu sentimos que estamos prontos para outra... quem sabe aos 74?


Por do sol em Araxá/MG

Em tempo: Se não der pra ir por baixo, volte!

Naza e Gilberto Bitar

Araxá/2007

7º ENU

Bravo 700

Rotax 912S

PU-GCB