Desde a saída de Belém com um pouso em Gurupizinho para deixar passar
uma chuva, e mais outro pouso em Estreito numa rua (antiga pista) para
tirar uma dúvida sobre consumo, até Araguaina onde pernoitamos, o
prazer do vôo foi total.
O segundo dia foi Araguaína, Gurupí, Porangatu e Goiânia. Dia puxado
mas compensado pela paisagem mudando a cada hora. O céu passando de
nublado para um azul celeste, a temperatura caindo gradativamente.
A chegada em Goiânia no fim da tarde foi especial, voando baixo,
seguindo os vales, contornando as colinas, vendo animais no pasto,
plantações, irrigações, enfim o Brasil lindo que a mídia reluta em
mostrar. O pernoite em Goiânia foi no Clube das Águias. Nosso colega
Wander já havia providenciado acomodações e alimentação lá mesmo no
Clube. Barriga cheia, avião abastecido e hangarado, só restava dormir.
De manhã cedinho com friozinho, lá estávamos nós comendo
nossas barras de cereal, tirando o Bravo do hangar, carregando,
inspecionando e aguardando os primeiros raios de sol para decolar.
O terceiro dia foi o dia de emoção. Desde o II ENU no Rio onde Naza e
eu estivemos, que surgiu a idéia de voar até Araxá no III ENU . Foi um
ano de dúvidas, reflexões, como aquela de colocar todos os ovos em uma
cesta só. Eu estou com 66 anos, início de Agosto, completo 67, mas
nessa idade até na véspera você só fala a menor.
Minha Naza está com 63
anos cheia de vitalidade e confiança. Os amigos achavam que eu devia
levar um colega piloto, caso me sentisse mal em vôo. Mas quem iria se
sentir mal? Eu? Não teria o mesmo sabor. Eu estava ótimo, minhas
três pontes de safena livres e desimpedidas. E a Naza navegou tranqüila seguindo a Belém–Brasília e confirmando as localidades na rota, no tempo previsto...
cochilando.
Eu ainda não havia
esquecido de quando transladei o nosso Bravo 700 de BH para Belém em
2000.
Mais uma vez, Naza havia dito que tudo iria dar
certo e aí foi só "atochar as piliquitas" e sair voando pôr esse Brasilzão lindão.

Assim foi que decolamos de Goiânia para Araguari. Embaixo, as lindas colinas que fiz questão ora de contornar, ora passar
raspando os topos; tudo estava lindo naquela quinta-feira de Corpus
Christi. Era lindo o céu, a terra e em especial a minha Naza que estava
feliz em estar voando, uma das coisas que mais gosta. Na freqüência
livre (123;45) escutei um grupo de colegas que voavam de Brasília para Araguarí. Me identifiquei e logo após bons papos fui convidado para o
café da manhã, o que foi bem vindo após um desjejum de barrinhas de
cereais. Pousamos e conhecemos nossos primeiros companheiros de ENU,
muito simpáticos e carinhosos conosco.
O curto vôo até Araxá foi marcado pela ansiedade da chegada com gosto de
vitória, de realização e conquista.

Quando passei o rádio para a freqüência de coordenação no solo, após o
pouso é claro, e escutei quem estava coordenando; contrariando as
normas eu falei:
- "Alberete - eu cheguei ! ". E ele perguntou:
- "Quem
esta aí ?!".
- "Sou eu cara , não falei que vinha ?!!".
- "E tu vieste
mesmo, cara".
Ai não deu outra; dei aquela choradinha básica, um beijo na Naza e o
resto foi só alegria.

Ficamos felizes de rever o Albrecht, o Ceotto, o Fábio e a Márcia (Aerobravo), o Luiz Cláudio e esposa (Flyer), o Mogens lá de Ijuí (Rio
Grande) e tantos mais. Fizemos novos amigos como o Ivan e sua Viviane, o Gerard Moss e sua Margi, o Nallin
e o "seu" Rosendo com suas respectivas
esposas, claro. O Nallin é um caso à parte de alegria e simpatia. Vocês
sabiam que enquanto o avião do Nallin cruza com 90 nós o do Rosendo
cruza com 90 lacinhos?!!.
Muitas coisas bonitas aconteceram no ENU, como a solenidade de abertura
quando alguns choraram com o Hino Nacional e eu também. Numa das
palestras dos fins de tarde o Albrecht me apresentou à um senhor como
sendo o velhinho mais simpático que ele conhecia. Assisti a palestra do Cmt. Fernando Almeida e realmente foi uma das pessoas mais simples,
simpática e competente que eu conheci, pena que tenha passado tão
tragicamente para o lado de lá, que como diz o Albrecht: - "está ficando
melhor que o lado de cá".
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Na palestra do Gerard Moss foi muito bom ouvir as histórias da sua
aventura ao redor do planeta em 100 dias em um Ximango, ilustrada com
belas fotos.
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Palestras sobre medicina aeronáutica, segurança e motores foram muito
enriquecedoras.





Gostoso mesmo foi o convívio com tanta gente bonita e entusiasta como
nosso anfitrião Montandon, o Toninho, Prefeito de Araxá, jovem, de
uma nova geração, competente e respeitado por sua comunidade.



As refeições foram fartas e de qualidade; lembro do colega Ronaldo que
no café da manhã perguntado se havia dormido bem, respondeu: - Não
sei PÔ!, se eu estava dormindo, como vou saber? Foi ele o mesmo que em uma das
palestras havia pedido uma "moção" ao povo americano pelos 100
anos da invenção da "catapulta....".

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Na verdade cada
refeição era um banquete com varias iguarias, acepipes saborosos tão
bem servidos pelo maitre do Hotel Dona Beja. Juntaram-se as mesas
e os grupos mais afins se uniram em animados papos. Fábio
Homem depois de algumas taças de vinho até cantor se tornou.
-
Murilo, o leitão a pururuca estava imperdível. |
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Sábado voamos em grupo para
Jaguara (Represa de Furnas) a 30 mim de Araxá, ali nos esperava um gostoso churrasco a beira do lago que só não
foi melhor porque estava terminando o último dia da festa. A noite foi o
jantar dançante onde eu e o José Patrício Francisco, de Mossoró,
disputaríamos o troféu de maior distância percorrida, que eu e a Naza
ganhamos e tivemos a maior satisfação em receber das mãos do Prefeito
Toninho. Festejamos muito junto com os amigos que não sei quando vou
rever. Senti falta de algumas pessoas como o nosso amigo Murilo Menezes
que foi um grande ausente.
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Quando recebi das mãos
do Prefeito Toninho o troféu do mais longo percurso, simbolizado naquele
bloco de acrílico azulado , tendo no seu interior o brevê dourado da Abul, e a inscrição: "Longe é um lugar que não existe." (Richard Bach),
me dei conta do quão distante havia vindo. Não deixei de pensar também
na volta, quando teríamos mais tempo de admirar os locais percorridos. |
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Domingo acordei triste, tinha que voltar de tão linda festa e tão boa
companhia. Arrumamos as trouxas (o Troféu junto) e fomos para o
aeroporto onde encontramos o Mogens que ficou conosco até decolarmos (não sei se ele gostou dos doces de cupuaçú que lhe demos).
A volta, seguindo a mesma rota da ida, foi o prazer do vôo.
Relembrar coisas como o avião do Nallin usar polainas nas rodas e o do
Rosendo pantufas, contar da festa para os companheiros do Clube das
Águias onde pernoitamos no Domingo, gozar da gentileza do amigo Ricardo
e esposa Alzirene, ele Diretor do Águia que na Segunda feira, antes da
nossa decolagem, ainda escuro, estava no Clube presenteando-nos com
um café da manhã para ninguém botar defeito.
Em Araguaína tivemos que esperar um dia a mais por gasolina que estava
em falta na rota.
A etapa Araguaína/Ipixuna onde fizemos um pouso técnico, durou 03:58 Hs. Seguindo a Belém-Brasília à 4.500 pés, deu para ver a dificuldade
dos carros para contornar o mau estado de nossa principal rodovia.
A hora seguinte, de Ipixuna para Belém, foi de ansiedade em reencontrar
nossos filhos Gilberto e Gilna, nossa netinha Clara, parentes e amigos.
Lembramos que tudo havia dado certo. A melhor lembrança foi do carinho
com que fomos tratados por todos durante a viagem, a harmonia entre eu
e a Naza, que me confidenciou ter sido esta aventura uma das melhores
coisas que já lhe aconteceu.
Meia hora fora, fiz contato com a Coordenação Aero&Nauta, operada por meu
filho que planejou e monitorou todo o nosso vôo.
O tempo estava bom,
somente alguns cúmulos, os grandes rios estavam à vista e a mata no seu
característico verde
escuro. Estávamos em casa.
Levei o nosso bravo "Bravo 700" que foi perfeito durante todo o vôo, para um
pouso suave, lembrando, não sei porque, o avião do Nallin ter passo de
hélice e o do Rosendo passo de Balé.
Meus amigos foi muito bom.
Para não ser injusto não citarei nomes mas quero parabenizar e agradecer
todos vocês que estiveram no III ENU. E acima de tudo, agradecer a Deus
pela benção da Sua proteção
Estar com amigos tão queridos foi mais um generoso presente do "voar".
Participar de um encontro dessa magnitude nos rejuvenesce: nos faz
criança, a criança perfeita - a alegria infantil com a experiência do
adulto.
Não tem como não repetir: "Meus amigos, foi muito bom".