De Belo Horizonte a Belém

- Gilberto Bitar e sua aventura pelo litoral nordestino -

Um dia desses estava conversando com amigos, comandantes de longo curso, no clube Aero&Nauta. Notei que cada um de nós tinha uma motivação para seu feito. A minha, com certeza, foi diferente da de todos.

... e Belém me espera...

Como muitos sabem, há 30 anos atrás fui sargento mecânico de vôo na FAB (QAV). Voei perto de 9.000h em Catalina, C-47 e Búfalo. Foram anos indescritíveis de uma FAB gloriosa e formadora de "Gente ".

Aos 64 anos e um infarto no currículo, resolvi transladar meu "BRAVO 2000 D", de BH para Belém, voando pelo litoral do nosso Brasil.

Motivação ? Provar a mim mesmo que ainda era capaz de tanto, pois sentia muita admiração pelos que o tinham feito.

Preparativos:

Em belo Horizonte falei com a equipe que me recauchutou (foi em lá que enfartei) e fiz uma bateria de exames. Resultado: disseram que era mais fácil eu ter problemas dirigindo carro do que voando.

Em seguida pedi ao meu filho, que é piloto comercial, que fosse a BH afim de voarmos juntos o BRAVO e planejar meu vôo. Diga – se que já vôo de ultraleve ha mais de 16 anos, desde MXL – IDRO, ML –300, Corsário PETREL, FOX e outros. Sou meio manicaca, mas consciente disto...

O Danilo, nosso mecânico (e dos bons), que acompanhou toda a fabricação do Bravo, já estava pronto para ser meu acompanhante nesta que já se prenunciava ser minha grande aventura, digna de "fim de milênio".

Danilo Santos

1° Dia

Grande Dia

Finalmente no dia 04/11/00, após alguns vôos de adaptação com o BRAVO, às 7:00h decolei do aeroporto Carlos Prates em BH, na companhia de meu mecânico e amigo Danilo. Destino: Governador Valadares. Foram 01:47h de um vôo tenso, pois eu ainda não estava totalmente afinado com a máquina.

Ao chegarmos à 6.500 pés, a vista lá embaixo era linda, porém não muito apropriada para um pouso, por isso pouco apreciei o visual.

Em Governador Valadares tivemos uma aterrissagem tranqüila, próxima de um grande morro e ao lado do rio Doce. Primeira coisa, ligar para meu filho, com quem comentava o vôo e escutava conselhos, o que se repetiria por toda viagem. Enquanto isso, Danilo completava os 160 Lts de gasolina do BRAVO, o que nos dava uma autonomia de 08:00h.

Um lindo visual de um dia tenso

Caravelas e Porto Seguro

Já voando mais solto, eu e o BRAVO continuamos com a bela paisagem serrana durante 03:26h até o mar. No tranquilo aeroporto de Caravelas o pouso foi apenas para relax. Daí para frente, a navegação se resumiria a ver as praias, o que até então fôra GPS e Mapa 4 rodas.

Até Porto Seguro foi um vôozinho de 00:29 min, com o cheiro de mar entrando pelos ventiladores. A vista do monte Pascoal e a cidade histórica, que há muitos anos visitei com minha família foi um deleite.

Hotel e mar de Porto Seguro/BA

Nosso hotel ficava do outro lado da rua do posto de abastecimento.  Foi o melhor repouso que tivemos após o primeiro dia de tensão e incertezas. Daqui para frente já confiávamos na máquina que girava macia e segura. Dormimos quase a tarde toda. Jantamos, demos uma olhada no BRAVO e dormimos novamente.

 

2° Dia

Rumo à Ilhéus

Às 07:00h já estávamos no ar, a 1.500 pés seguindo a linha da costa. Com intimidade fazia o BRAVO deslizar contra um vento Norte que nos mantinha em uma V.S. de cerca de 70 M.P.H. Com o ROTAX 912 –S girando macio 4.800 R.P.M , mantinha uma V.I. de 95 M.P.H.. Foram 01:49h de belas enseadas.

Ilhéus - Itaparica

Ao decolar de Ilhéus ocorreu o único problema mecânico da viagem : Nosso R.P.M oscilou e zerou. O ronco do motor continuou normal e deduzimos que o instrumento havia falhado. Danilo contudo achou melhor retornarmos para uma melhor verificação . No solo constatamos que fora o instrumento e assim voltamos para os ares, rumo a ilha de Itaparica na Bahia de Todos os Santos, às vistas de Salvador. Foram 01:41h até encontrarmos nosso amigo Noé e sua esposa Erenilda, em sua maravilhosa Ilha. Noé é um homem simples, amigo e competente. Idealizou e construiu o PARADISE. Um avião fácil e com belas características de vôo que só o Albrecht pode descrever pois o testou em Paulo Afonso e se encantou.

Tivemos uma tarde tranqüila onde gozamos da hospitalidade de nossos amigos, ficando hospedados em sua casa à beira mar.

No través de Salvador/BA

 

3° dia

Itaparica – Maceió

Foi o percurso mais longo, 04:44h. Surpreendentemente, não sentimos cansaço nem tédio, pois o visual era fantástico. Este trecho da costa é uma praia só, pontilhado de belíssimos recantos e logradouros. Foi quando mais senti a falta da minha Naza (esposa). Ela teria adorado esta viagem, mas como ela disse: ".... não privaria o Danilo deste merecido prazer ". Então eu cantei em louvor a ela : ".... Amor de minha vida minha Naza querida...".

A chegada em Maceió foi tranqüila. O tempo estava bom e o vento forte, porém liso. Caminhamos um pouco para desenferrujar, preenchemos o plano de vôo e...

Recife lá Vamos nós ... 01:46h

Falar das belezas do nosso litoral já está ficando repetitivo, mas que é lindo, é. No Encanta Moça a recepção foi ótima. Antes de nos alojarem em seu Hotel de Trânsito, a turma nos levou à conhecer a fábrica do Pepe. Gente simpática. O avião que estão desenvolvendo é de uma criatividade ímpar. 

Alojados e banhados, fomos participar do churrasco das sextas – feiras, ali mesmo no clube. Lá estava o comandante Arthur ( ele tem um lindo RENEGADE ), um dos incentivadores de meu vôo.

Bravo e Renegade em Recife/PE

Quando externei no site da ULTRALEVE ONLINE, minha intenção de tal proeza, a resposta do comandante foi: "Gilberto, o segredo é planejar e sem perguntas tipo: e se...? E se...?. .. De-co-lar.... aí então você será um comandante de longo curso.

A turma lá de Recife é animada. Seu Presidente Cmte. Holanda, um figurão. Todos muito atenciosos, nos deixaram a vontade.

 

4° Dia

Recife – Natal

No sábado dia 07, tínhamos que estar mais atentos com as áreas restritas. Começando com a base de lançamento de foguetes da Barreira do Inferno e em seguida a área do Aeroporto e Base Aérea, onde os Xavantes estão em constante treinamento. Tudo estaria bem se não fosse eu estar com as freqüências de rádios trocadas. Naquela área você chamar o Controle e a Torre e só ter o silêncio como resposta, só da vontade de estar no solo. E foi o que fiz: Livrei um Boeing na final da primeira pista e pousei na segunda, após 01:56h de vôo. Procurei a Torre de Controle e fui até lá escutar a bronca. Após ouvir o que merecia ouvir, dentro de um clima de bom senso e respeito, fui liberado para prosseguir viagem.

Reabastecendo em Natal/RN

Aproveito aqui para recomendar aos meus colegas que saírem para vôos como o meu, que estejam mais atentos para não passar pelo mesmo constrangimento. Imaginem a bronca que ouvi do meu filho. Ele me deu tudo certo e eu na minha desatenção olhei no lugar errado.

 

Próximo destino: Fortaleza via Mossoró

O vôo de Natal à Mossoró foi o teste estrutural do BRAVO. Foram 01:55h de pauleira. Na realidade não pousamos em Mossoró e sim na Fazenda Maiza.

Lá nos informamos sobre o rumo para Tibaú , um balneário de Mossoró.

Chegando a Tibaú encontramos uma pista de chão com uns 1000m de extensão.

A finalidade deste pouso foi aguardar a hora liberada pelo Clube de Ultraleve e o SERAC de Fortaleza, para cumprir o convênio vespertino que é das 16:00 às 18:00h para vôo na região. Diga-se de passagem que isto é uma das coisas mais chatas que existe, mas a proximidade do Clube com a Base Aérea e o Aeroporto civil criaram esta situação.

O litoral do Ceará é muito bonito. Canoa Quebrada (conheci quando nossa Empresa construiu um dique em volta de Aracati) , com suas dunas vermelhas, o Beach Parque que sobrevoamos, a Praia de Iracema (onde tomei banho, há muito tempo atrás em vôos de Catalina de Belém – Fortaleza –Salvador – Rio). Belas lembranças todas ali à 1.500 pés; 01:23h de vôo e pousamos.

Um Clube simples , funcional, com gente simpática que tão bem nos acolheu. O Comandante Ovídio, Cmte. Carlão e Sérgio Pedra demonstrando seu lindo PC –90. Aí conhecemos a maior variedade de UL : O lindo e aerodinâmico FASCINATION , o MISTRAL , o MAIU , o ECO e muitos outros . Feitas as apresentações vieram as histórias sobre o que tanto gostamos : Voar !

Era o quarto dia e já estávamos cansados e ansiosos para chegar em casa. Pegamos uma carona para o hotel, com o amigo Ovídio - Um perfeito anfitrião.

 

5° Dia

Prosseguindo : Para São Luiz via Parnaíba

Domingo às 06:00h decolamos da bonita Fortaleza de gente boa, rumo à Parnaíba . Por momentos abandonamos a orla do mar para economizar tempo.

Esta área e desprovida de vegetação alta. Um semi-árido com sua beleza particular . Parnaíba é muito quieta. Seu aeroporto quase deserto abriga uns poucos aviões que fazem Táxi Aéreo. Após 02:04h de vôo um tanto quanto monótono, a permanência em Parnaíba foi para esticar as pernas.

Na expectativa do vôo sobre os lençóis Maranhenses, decolamos para São Luiz.

Realmente é uma beleza. Infindáveis dunas de areia alva que abrigam inúmeros lagos de água cristalina. Um vôo rasante com horizonte 360º de dunas nos dá uma sensação de vastidão sem fim. 

Lençóis Maranhenses

Mais alguns minutos, do total de 02:00h voando sobre manguezais, a ilha de São Luiz surge coroada de nuvens baixas. Logo avistamos o Aero Clube Passo do Lumiar onde após notificação ao controle São Luiz, pousamos para abastecimento. Tudo pronto, dez minutos de vôo e lá estávamos nós no CAVU, o Clube de Ultraleve de São Luiz. No momento havia um casal no Clube que nos acolheu e nos levou até a loja do Comandante Rocha, que é o Presidente do CAVU. Rocha , que estava trabalhando , apesar de domingo, largou tudo e nos levou à um alegre hotel à beira mar, ficando certo que nos apanharia mais tarde para voltarmos ao Clube, onde ai estaria reunida a turma para um bate papo. A noite chegou e lá estávamos nós contando histórias de vôos. Comandante Serra, Braga Filho, Silvino entre outros, são companheiros entusiasmados com o aerodesporto e estão construindo aos poucos e com algumas dificuldades, um Clube que logo chamará a atenção . No momento vale a alegria das reuniões e os vôos pelas belas praias de São Luiz.

A turma do CAVU

 6° Dia

Lar Doce Lar

Segunda-feira dia 09/10/00 , 06:30h partimos para nossa etapa final, São Luiz – Belém. Subimos para 4.500 pés acima da camada rala de flocos brancos e aí durante 03:00h me deixei refletir sobre nossa aventura.

As condições atmosféricas não poderiam ter sido melhores; tempo muito bom sem nenhuma chuva nos acompanhando; os pequenos incidentes como o de Natal foram resolvidos por si só; o BRAVO foi perfeito; os companheiros na rota foram de uma simpatia e solicitude a toda prova; Danilo e eu estivemos com o humor e a saúde perfeitos. Minha Naza tinha razão quando me disse :

" Vá tranqüilo que tudo vai dar certo". E só deu.

Apesar da ansiedade as 03:00h até Belém se passaram rápido. Pelos furos da camada de nuvens, víamos que estávamos chegando, pois os rios estavam engrossando e a mata estava mais verde escura. Estávamos em casa.

Quinze minutos antes do estimado furamos a camada e começamos a vislumbrar os caminhos conhecidos. Logo a ilha do Outeiro estava à vista e em seguida os hangares do Clube, a pista , pessoas que nos esperavam, o rasante, o choro de emoção , o pouso , os abraços e fim.

Todos que puderem, façam o que fiz, e se..., e se... DER TUDO CERTO?....

VAI DAR TUDO CERTO !!

A chegada - Valeu por tudo.

 

A Rota:

Resumo


GILBERTO BITAR


BRAVO 700 - U-4884

DATA:
TRECHO:
DISTÂNCIA:
TEMPO DE VÔO:
AERONAVE:
PILOTO:
ACOMPANHANTE:
CONTATO:

4 a 9 de outubro de 2000
Belo Horizonte / Belém
5.124 km
6 dias -  29 horas de vôo
Bravo 700 / Rotax 912-S
Gilberto Bitar
Danilo Santos
gilbertobitar@estacon.com.br