Voando as Américas

o Diário de Bordo de

- Paulo Cesar Rivetti e Michele Perrone, do Rio a Oshkosh -

Clube CEU - Rio de Janeiro

O projeto era voar do Rio de Janeiro, Clube Céu (SDIN) em Jacarepaguá, até a feira aeronáutica da EAA em Oshkosh, (KOSH), nos Estados Unidos. A aeronave escolhida foi um FK9 Mk3, matricula U-5242, equipada com um tanque extra na asa esquerda. 

Tudo pronto! Começa a aventura...

14 de Julho de 2001 - Rio de Janeiro / Uberaba

Saída do Clube Céu no Rio de Janeiro. Na partida tivemos que acertar o CG da aeronave devido ao pequeno espaço do bagageiro e a quantidade de itens que estávamos levando. Conseguimos balancear corretamente nosso FK9 colocando parte da “tralha” no bagageiro e parte embaixo dos assentos dianteiros. Com o problema resolvido partimos à tarde para Uberaba, (SBUR), aproando inicialmente Ubatuba. No través de Parati e no FL 065, fomos autorizados a tomar proa direta de Uberaba, Quando já próximos da TMA de Uberaba, chamamos a torre e fomos surpreendidos pela exigência de autorização especial emitida pelo SERAC para poder pousar ultraleves avançados em aeródromos controlados por torre! Argumentamos que estávamos equipados com dois rádios VHF com faixa de freqüências atualizadas e com transponder modo C, mas mesmo assim foi exigida a autorização. Felizmente, o operador da torre abriu uma “exceção” permitindo o pouso, mesmo porque não havia nenhum aeródromo nas redondezas sem torre e com abastecimento. Após 04:07 horas de vôo estávamos pousando em Uberaba. Uma conversa cordial com o controlador de vôo nos deu acesso a uma instrução da Infraero sobre a exigência da tal autorização prévia!

 

15 de Julho de 2001 - Uberaba / Gurupí

Em face da duvida sobre a autorização acima mencionada resolvemos modificar nossa rota partindo às 08:08P para SWNV em Goiânia ao em vez de SBGO conforme programado. As condições meteorológicas estavam VFR e chegamos ao nosso primeiro destino do dia sem maiores problemas.

Abastecemos e rumamos para Gurupí, (SWGI), no estado de Tocantins. Devido ao calor do dia sentimos os efeitos das correntes ascendentes provocadas pela alta temperatura e, por isso, o vôo não foi muito confortável. 

Chegamos em Gurupí, sendo muito bem recebidos pelo Sr. Ramon, um apaixonado piloto de ultraleves. Ramon nos cedeu um lugar no seu hangar para o pernoite do nosso U-5242. Rumamos de táxi para a cidade. Nosso hotel era muito bom.

 

16 de Julho de 2001 - Gurupí / Marabá

Para agilizar nossa saída, já havíamos deixado pronto o FK-9 no dia anterior . No aeroporto encontramos nosso amigo Ramon nos aguardando para abrir o hangar e nos desejar um bom vôo. Decolamos às 08:15P de Gurupí com destino a Marabá, (SBMA). 

Passando por Conceição do Araguaia/PA

Subimos para o FL 065. Sobrevoamos Conceição do Araguáia e após 04:37 horas pousamos em Marabá. Com uma temperatura de 30º C na sombra, o calor intenso provocava turbulência forte afetando o desempenho do nosso vôo, devido ao pouco peso do avião. A meteorologia amazônica também nos mostrou ser melhor voar na parte da manhã e ficar no solo à tarde.

 

17 de Julho de 2001 - Marabá  / Macapá

Decolamos às 08:00P com destino a Macapá, (SBMQ). Sobrevoamos o lago de Tucuruí em condições VFR e logo em seguida já começaram os primeiros CU formados pelo calor do dia. Voamos fazendo vários desvios até o sobrevôo da cidade de Breves, (SNVS), na ilha de Marajó.

Quando estávamos próximos de Macapá avistamos ao norte formações de TCU e CB, confirmando a impossibilidade de voar à tarde. Pousamos às 11:46P e o resto do dia aproveitamos para preparar nossa saída junto a Alfândega, DAC e Polícia Federal onde a presteza e agilidade fizeram com que em poucos minutos estivéssemos com a burocracia “resolvida”.

Mas a fiscalização da Infraero estava em duvidas quanto à cobrança da “taxa” , pois não estava escrito em nenhum papel que a isenção de cobrança de taxas aeroportuárias para ultraleves incluía vôos internacionais! (Sanha arrecadadora?). Argumentamos que “se não está escrito a isenção é total” , conseguindo assim ganhar esta pequena batalha contra os entraves burocráticos do nosso país. Aliás, o restante da viagem transcorreu sem a necessidade de autorizações de vôo especiais, apresentação de documentos do avião e licenças dos pilotos. Basta o plano de vôo visual para autorizar o vôo e o pouso nos aeródromos de destino. Conhecemos em Macapá o Cmte. Carlos, que já sabia da nossa aventura. Após nosso pouso ele veio nos saudar, nos levou ao hotel e, jantamos juntos.

 

18 de Julho de 2001 - Macapá  / Rochambeau

Nossa rota de Macapá para Rochambeau, (SOCA), aeroporto internacional de Caiena que é a capital da Guiana Francesa, incluía somente o sobrevôo da cidade de Oiapoque, (SBOI), já na fronteira entre os dois paises. Este foi o trecho em que sobrevoamos a maior extensão de floresta da nossa viagem. Também foi o trecho com menores vestígios de civilização, tal como estradas, (somente uma), e cidades ou vilas, (somente duas).

A informação meteorológica na rota era por conseqüência inexistente. Logo cedo o Cmte Carlos veio ao hotel, tomamos café da manhã e fomos para o aeroporto. Saímos de Macapá às 08:30P. Subimos para o FL085.

Formações sobre o Amapá

Vôo visual, porém com muitos desvios por formações de CU e alguns CB. Sobre o Oiapoque, devido à alta umidade do ar, percebemos a formação de gelo no carburador. Tivemos que descer para 2.500 pés e continuar a viagem nesta altitude até nosso destino. O vôo tornou-se turbulento mas o pouso foi tranqüilo. O pessoal da alfândega de Caiena foi bem ágil. Há no aeroporto um excelente serviço de meteorologia com informações completas, previsões corretas e fotos de satélite, (finalmente)! Em Caiena ficamos no hotel Novotel que é muito bom.

 

19 de Julho de 2001 - Rochambeau / Georgetown

Após abastecer o FK-9, decolamos às 08:00P. Foi um vôo VFR marginal, com muitos desvios na rota em função das formações de CU e TCU. Sobre o VOR ZY, (Zanderyj, Suriname), desviamos para o mar à procura de melhores condições de vôo visual. O GPS foi muito útil pois era constante o pedido de estimados de sobrevôo de fixos aeronáuticos por parte dos controladores de vôo da região. 

Pousamos em Timehri. No aeroporto internacional da cidade de Georgetown (SYCJ), capital da Republica da Guiana fomos recebidos pelo "handling agent" previamente contratado para fazer os trâmites legais, pois os entraves da imigração local são complicados para quem não é “de casa”. 

Aeroporto de Timehri

Conseguimos guardar o FK-9 em um hangar sem portas e afastado do terminal de passageiros, (diziam ser o melhor hangar disponível) e pagamos pela vigilância noturna para evitar que curiosos mexessem no avião.

 

20 de Julho de 2001 - Georgetown

Neste dia "ficamos no chão". O dia amanheceu sob chuva forte com trovoadas e teto baixo. Não haviam condições para vôo visual. Fomos obrigados a adiar a viagem e permanecer na cidade de Georgetown por um dia inteiro, olhando para o céu na esperança de melhores condições. Somente no fim da tarde, conversando com nosso amigo Malcom Cheng-A-Sue, (presidente da AOPA – Guiana), soubemos que o tempo poderia melhorar no dia seguinte.

 

21 de Julho de 2001 - Georgetown / Fort de France

Pista de Grenada

Finalmente conseguimos decolar de Timehri, tomando a proa direta da ilha de Trinidad. Muitos desvios, principalmente na foz do rio Orenoco e sobre Trinidad, por causa de formações pesadas de TCU. Sobre o mar o tempo estava melhor. Pousamos na ilha de Grenada, (TYPG), para reabastecimento. 

Grenada

Já longe da meteorologia amazônica pudemos prosseguir à tarde para Fort de France (TFFF) na ilha de Martinique. Chegamos no final do dia e providenciamos a troca de óleo do motor.

Aeroporto de Martinique

O aeroporto internacional é muito bom com pessoal atencioso e cortês. O mecânico da Air France que nos ajudou na troca do óleo do motor Rotax do FK9 foi rápido e eficiente. Ficamos em um ótimo hotel na cidade. Imigração rápida. Meteoro e plano de vôo em cinco minutos!

 

22 de Julho de 2001 - Fort de France / Punta Cana

Decolamos às 08:15P com destino à ilha de Nevis (TNPK). Tivemos informações que o vulcão da ilha de Montserrat entrara em atividade. Como esta ilha estava na rota, desviamos para a direita, pois o vento soprava de Leste,

empurrando as cinzas para a nossa rota. Foi uma oportunidade única ver um vulcão em erupção. Embora a ilha esteja quase que totalmente devastada, o visual é impressionante e nada pode descrever a devastação.

Abastecemos na ilha de Nevis e decolamos rumando para a Republica Dominicana, sobrevoando as ilhas de St. Kitts, St. Marteen, Tortola, passamos ao norte da ilha de St. Thomas, voamos ao longo da costa norte de Porto Rico e pousamos em Punta Cana, (MDPC), nosso destino final neste dia.

Ilha de Nevis

Vôo visual com muitos desvios por CB e TCU próximos a Porto Rico e na chegada em Punta Cana. Pouso muito “trabalhado” devido à turbulência e rajadas de vento muito fortes. Pagam-se taxas para todos os serviços e o atendimento no aeroporto não está preparado para aeronaves particulares. É o reinado dos aviões comerciais que trazem milhares de turistas por semana. Em compensação nosso hotel era perfeito.

 

23 de Julho de 2001 - Punta Cana / Great Exuma

Saímos de Punta Cana com grande atraso devido à desorganização do abastecimento de combustível e à burocracia da policia, alfândega e plano de vôo. Não conseguimos informações meteorológicas da rota. Havia à nossa direita uma grande formação de CB que nos impedia de tomar a proa direta para a ilha de Providenciales, (MBPV), nas Turks & Caicos Islands, nosso primeiro pouso do dia. Finalmente, após percorrer quase toda a costa da Republica Dominicana, conseguimos girar um pouco à direita e começar a contornar esta grande formação. Mais adiante encontramos condições 100% VFR que nos proporcionaram um visual fantástico do mar do Caribe. Chegamos em Providenciales como planejado.

O pouso foi novamente muito “trabalhado” por causa da componente de vento cruzado de 18 KT. Reabastecemos o FK 9, e continuamos para Great Exuma, (MYEF), já nas ilhas Bahamas. Muitos desvios ao longo da rota por CU e alguns CB, mas com uma visão maravilhosa das ilhas e dos recifes de areias brancas com águas transparentes. Esta região é sem duvida única no mundo e vale a pena o sobrevôo. Pouso com vento cruzado forte. O hotel era muito bom.

Great Exuma

 

24 de Julho de 2001 - Great Exuma / Fort Lauderdale

Decolamos logo cedo com destino à Florida sem muitas informações meteorológicas. Após 01:00 horas de vôo e muitos desvios, pousamos na pequena ilha de Staniel Cay, (MYES), devido à “muralha” de tempo ruim com chuva forte em nossa rota. Amarramos o avião, pois a pessoa que nos recebeu na pista de pouso da ilhota informou que o mau-tempo deveria durar cerca de 12 horas. 

Staniel Cay

A ilha Staniel Cay não tem mais do que 100 habitantes e quase nenhuma infraestrutura. O único hotel não dispunha de quartos. Existe em toda a ilha somente um “orelhão” telefônico com grande limitação para realizar ligações internacionais. Tivemos a impressão de estar perdidos no mundo, sem acomodações para a noite e sem poder falar com o Brasil. O jeito foi esperar com paciência. Felizmente após algumas horas, mas ainda sob chuva forte, fomos informados pelo dono do único hotel que na ilha próxima, denominada Black Point, havia uma pequena pensão com um quarto disponível. Esperamos até às 15 horas quando a chuva deu uma acalmada. Decolamos com destino à Black Point mas, para nossa surpresa, o tempo no setor noroeste, nossa rota para a Florida, estava limpo. Decidimos continuar até a ilha de Andros mantendo condições VFR. As condições no caminho melhoraram ainda mais, e sobre Andros ativamos com Miami Radio um plano de vôo DVFR conseguindo chegar em Fort Lauderdale, (KFLL), às 18:30P. Pousamos para os tramites alfandegários nos Estados Unidos! Salvamos assim um dia que parecia perdido. Após meia hora (trabalho muito simples e desenrolado), decolamos para o Fort Lauderdale Executive Airport (KFXE).

Pousamos às 19:20P. 

Taxiamos para o hangar da Banyan Air Services, aonde fomos recebidos com um tapete vermelho, (praxe local oferecida até para a nossa pequena, mas valente, aeronave). 

 

25 de Julho de 2001 - Fort Lauderdale

Avião em manutenção para troca de altímetro. Decidimos instalar um altímetro sensível com dois ponteiros, por ser mais adequado para o vôo. A meteorologia no interior dos Estados Unidos não permitia nossa saída para Oshkosh. Surgia neste momento a preocupação com a data de chegada na feira, pois tínhamos ainda 3 dias de vôo até lá. Em todo os USA havia muita chuva com trovoadas, alagamentos e até alguns tornados.

 

26 de Julho de 2001 - Nova tentativa

Decolamos logo cedo, mas perto de Vero Beach, ainda na Florida, retornamos devido ao mau tempo. Começamos a pensar em ir para a feira de Oshkosh de avião comercial, pois estavam previstos mais dias de mau tempo ao longo da nossa rota, sem possibilidade de desvios. Não queríamos perder a feira de jeito nenhum!

 

27 de Julho de 2001 - Oshkosh em vôo comercial

Com a tentativa de vôo frustrada, pegamos então um avião comercial e chegamos à noite tarde em Oshkosh. Foi uma decisão correta baseada na prudência, porque as más condições meteorológicas previstas se confirmaram. Visitamos a feira no sábado e no domingo.

Assim terminou nosso vôo. Nossas atividades profissionais nos obrigavam a estar no Brasil no dia 1º de Agosto. O nosso valoroso e fiel FK9, U-5242, está retornando para o Brasil dentro de um “container” e estará pronto para mais uma “aventura” no próximo ano.

Para comunicações foram instalados dois rádios VHF da marca BECKER AVIONICS, um dos nossos patrocinadores. Cada um de nós levava no próprio pulso um relógio com ELT em 121.5MHz marca BREITLING EMERGENCY série especial “ORBITER” , cedidos pela BREITLING e pela NATAN que também patrocinaram o vôo. Nossas roupas foram fornecidas pela rede de lojas TRACK & FIELD de São Paulo, que também nos apoiou. Um laptop para o calculo e acompanhamento da navegação, bem como os equipamentos para fotos e vídeo digitais sobre a viagem foram fornecidos pela empresa LAPTOP SHOP de São Paulo. A RALLYE DESIGN modificou os assentos do FK9 permitindo que ficássemos confortavelmente sentados por muitas horas de vôo. O representante do FK9 no Brasil, a empresa ALPHA BRAVO do Rio de Janeiro, colaborou na instalação do tanque extra, na instalação dos rádios mencionados acima e nos deu todo o apoio na obtenção dos documentos da aeronave para que pudéssemos realizar o vôo dentro das datas previstas. Obrigado a todos.

Paulo Cesar Rivetti e Michele Perrone.

 

Planilha com o detalhamento das etapas voadas:

DATA

ETAPA

NM

ROTA

TEMPO DE VÔO-h

14/07/2001

SDIN-SBUR

362

VIA BAIA DE ANGRA DOS REIS

04:07

15/07/2001

SBUR-SWNV

204

 

02:17

15/07/2001

SWNV-SWGI

294

 

03:00

16/07/2001

SWGI-SBMA

388

VIA CONÇEIÇÃO DO ARAGUAIA

04:27

17/07/2001

SBMA-SBMQ

345

VIA TUCURUI E BREVES

03:31

18/07/2001

SBMQ-SOCA

300

VIA OIAPOQUE

03:26

19/07/2001

SOCA-SYCJ

370

VIA SAINT LAURENT DU MARONI, ZANDERYJ

03:32

21/07/2001

SYCJ-TYPG

403

VIA TRINIDAD

04:16

21/07/2001

TYPG-TFFF

164

VIA STA. LUCIA

01:57

22/07/2001

TFFF-TNPK

186

COM DESVIO DE MONSERRAT

02:00

22/07/2001

TNPK-MDPC

361

VIA SAINT MARTEEN, BEEF ISLAND

03:25

23/07/2001

MDPC-MBPV

295

VIA PUERTO PLATA

02:56

23/07/2001

MBPV-MYEF

228

 

02:11

24/07/2001

MYEF-MYES

48

 

00:59

24/07/2001

MYES-KFLL

242

VIA SAN ANDROS, BIMINI

02:31

24/07/2001

KFLL-KFXE

8

 

00:15

 

Totais: 

4.198

Milhas Náuticas

44.50 h

 

 

7.775

Quilômetros

 

Resumo

   Michele Perrone  Paulo Rivetti

conheça os aventureiros

FK9 - U-5442

conheça a "máquina"

DATA:
TRECHO:
DISTÂNCIA:
TEMPO DE VÔO:
AERONAVE:
PILOTOS:
CONTATO PAULO:
CONTATO MICHELE:

14 a 27 de Julho de 2001
Rio de Janeiro (BRA) / Fort Lauderdale (USA)
7.775 km
44,50 h
FK9/Mk3 - Alpha Bravo
Paulo Rivetti e Michele Perrone
paulorivetti@uol.com.br
michele@voandoasamericas.com