
Por volta de 1953, com 6 anos, no colo de meu pai, fiz um vôo panorâmico num Paulistinha que apareceu no Patrimônio do Quinze, perto de Santa Mariana, norte do Paraná. Desde então aprender a pilotar tornou-se uma obsessão e, voando mais alto, sonhava poder comprar um brinquedo daqueles.
O tempo passou, dinheiro sempre curto, até que finalmente,patrocinado pelo “seo” Tuta, dono da Jovem Pan onde eu trabalhava, finalmente fiz o curso de PP, em 1979, na antiga ESA, Escola Superior de Aviação, da Margarida e do comandante Eduardo Romberg, que funcionava num anexo do hangar Votec no campo de Marte. Solei com o comandante Steinberg na pista de Atibaia e lembro ter chorado copiosamente naquele dia, no hangar do Tada onde até pessoas desconhecidas me abraçaram não sei se por causa da minha conquista ou em solidariedade à minha emoção.
Voei um ano solo, pagando as horas, até perceber que não dava mais para sacrificar a economia doméstica em favor dos meus devaneios. Afastei-me, com dor no coração, mas sempre acreditando que um dia teria o meu avião. Anos depois, num trabalho de cobertura do carnaval em Santos em 1988, vi pela primeira vez um ultraleve voando na orla da praia e no ano seguinte localizei o seu ninho que ficava em Itu, na antiga pista no centro da cidade, escola que pertencia ao mestre Paulo Ortega.
Fiz a adaptação de PP para CPD (acho que era essa a habilitação) e no dia que solei o GT, chorei pela segunda vez por causa de avião. Nessa ocasião acabei comprando um GT recuperado, motor 532 e com ele voei umas 200 horas. Depois mais dois GTs, mas faltava alguma coisa. O asa aberta não era avião como aquele da infância e, portanto, continuava sonhando. Foi o saudoso Osmair quem possibilitou que eu comprasse um Coyote simples em 1999. Depois outro Coyote, um pouco mais novo e finalmente um Pelican, também de segunda mão.
Sucumbido pela beleza do Kolb e pelos argumentos do professor e amigo de fé Jeovan Alencar, encomendei um à Flyer, com um ano para pagar, equivale dizer, um ano para recebê-lo, dando o Pelican como parte de pagamento.
Hoje, 6 de novembro, rigorosamente dentro do prazo e de tudo que foi acordado, recebo telefonema da Flyer para ir buscar o Kolb em Americana e, para provocar, a empresa enviou junto com a mensagem uma foto do avião. Pensei comigo, o sonho se realiza 62 anos depois!
A disposição física já não é a mesma. Os cabelos, quase todos, ficaram à beira da longa estrada. Mas o coração continua de menino e nem é preciso dizer que, como tal, me debulho em lágrimas de novo.
Desta vez tendo a cumplicidade da Débora e da Victória, minha mulher e a filha caçula, de 11 aninhos, que exigiu que seu nome, com o fator RH também fosse adesivado no capô. Com certeza, muito breve será uma integrante da família Abul, cujos associados ela conhece e até associa aos seus respectivos sítios de vôo de tanto que navega no site da nossa associação.
É isso! Estou no ar de novo, depois de 3 meses no chão em função da venda do Pelican. E desculpem o desabafo de um bobalhão.
Acho que estou ficando velho!

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